sábado, 8 de agosto de 2009

'Confissão dum homem religioso' obra-prima esquecida de José Régio...

Cristo, desenho de Régio
Cristo e o poeta, desnho de Régio


José Régio, nos anos 60, em Portalegre

Não se respira bom ar e o que fede não decorre, apenas, de factos: resulta de atraso cultural e de consequente especulação mediática. Centralizarem-se as atenções, fixarem-se os olhos em tudo quanto é sórdido e morboso -triste imagem de um país! Adiante. O país não é, nem nunca foi, só isso: anedota queirosiana ou trágica labreguice denunciada por Camilo. Aliás, este, em páginas vibrantes, descreve a nossa paixão, que redime. E, agora, o acaso, procurar, na minha biblioteca, uma obra capaz de me prender, limpa a cena: topo a “Confissão dum homem religioso”, de José Régio. É um livro autêntico. Do tempo em que os homens falavam? Passe a ironia, há trinta e oito anos, andávamos amordaçados -mas, hoje, andamos imbecilizados. A massificação leva a tais coisas. Lembram-se de Renoir dizer ao filho: “éramos pessoas, tornámo-nos chusma”? O povo diz: “andar fora da mãe”...


José Régio escreveu uma obra-prima da Literatura, publicada, póstuma, em 1971 -livro intimista, genialmente singelo e profundo, que retoma o problema do Homem diante da Vida, ou de Deus (ou do Seu silêncio ou ausência). Qual foi a resposta do público? Irrelevante e receio que continue esquecido. Nem receio: tenho a certeza. À altura, participei no Júri de um grande prémio, que, sugeri, fosse atribuído, ainda que postumamente, a 'Confissão dum homem religioso'; foi um escândalo, uma indignação... antes houvese falado no diabo...


E, no entanto, lá encontramos quanto nos deveria prender, apaixonar: o mistério do nosso destino; o imperativo ético; a dignidade; o respeito pelo outro; a busca da conduta menos imperfeita. Voltei a ele, feliz: ajuda, purifica, conforta. É voz verdadeira, em tempo doente.

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