Vénus Anadiomena, 1518
Assunção, 1518
Autoretrato, 1567
Pietá, 1570/76Aldo Zari, o célebre pintor mais pobre de Veneza, meu grande amigo, ensinou-me a admirar e a respeitar Tizano Vecelli, seu conterrâneo. Corremos todos os lugares da cidade, à procura dele. Explicou-me tudo. Revelou-me o que nunca entenderia sozinho.
Ontem, voltei à National Gallery e revi um quadro dos últimos anos do Mestre, que viveu quase cem anos (não é certo quando nasceu, entre 1480 e 1486?; e morreu em 1576), datado de 1570-1576. É uma Nossa Senhora, a dar de mamar a Jesus menino. Não o encontrei online, por isso não posso mostrá-la; vou apoiar-me noutra peça, contemporânea daquela, e que é a última reproduzida e tentar comunicar a impressão.
Vamos olhar, a primeira imagem reproduzida, acima: a Vénus Anadiomena, 1520, pintada, em 1520, Tiziano andará perto dos quarenta anos. Reparem na força, na sensualidade da mulher, como nos chama e provoca, e se afirma, prenhe de vida.
E, logo abaixo: a estupenda Anunciação, mais ou menos do mesmo ano, em plena maturidade de Tiziano. Que vigor, entusiasmo, paixão mística inegualáveis!
Agora, olhem o autoretrato, de 1567, Tiziano anda nos sessenta e poucos anos... Ainda se nota o orgulho, a segurança de um homem cuja personalidade fortíssima pesou em Veneza.
E, finalmente, o quadro datado de 1570-1576 (da época do que me surpreendeu e não posso trazer, aqui), a magnífica e tremenda Pietà!
O que me impressionou foi a mudança. As cores escapam-nos, infixáveis, o movimento das figuras dir-se-ia lasso e uma espécie de véu separa-as de nós. Tiziano sabe que a morte o acompanha. Tiziano vê coisas tão dele, tão íntimas, que, lhe fervem dentro, e deixa-nos sinais. Ainda está connosco, mas já começou a viagem indivisível, já ultrapassou o limiar da solidão da morte. Agora é uma questão de tempo... O que é que ele viu? O que é que nós iremos ver, um dia, nesse dia?...
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