...Cupido e Vénus bem carnais e com a espiritualidade do que é absoluto...Carolina Michaëlis notou que o amor de origem divina ‘é mais insistente no nosso lirismo que em nenhum outro’. Afonso Duarte quem me ensina, no precioso, esgotado e abandonado “Um Esquema do Cancioneiro Popular Português”, editado pela ‘Seara Nova’, em 1944.
E logo cita esta quadra, cantada pelo nosso povo:
-Ai Jesus, valha-me o céu!
Não sei que céu há-de ser?
Há-de ser o céu do amor
Que outro não pode haver.
O sentimento é de tal maneira forte, o desafio à lei da vida e aos desígnios de Deus, tão decidido, que se canta, também:
O meu coração do teu
É mui ruim de apartar!
É como a alma do corpo
Quando Deus a quer levar.
E como isso do amor, o encontro de duas almas, bem-no dizia Montaigne!, é coisa que demora séculos a preparar-se:
-No ventre da tua mãe
Já meu coração te amava.
E, realmente, duas almas se juntam:
Chamaste-me tua vida
Eu tua alma quero ser:
A vida acaba co’a morte
A alma não pode morrer.
Ou, ainda:
Hei-de amar-te até à morte,
Até depois de morrer;
Inda debaixo da terra,
Meu amor, podendo ser.
E a verdade é que, depois da morte, pode voltar o fantasma do (a) amado (a):
Já morri, já me enterrei,
Agora já estou aqui:
Nem a terra me comia
Sem me despedir de ti.
E a angústia do amado ou amada, ‘perdidos’ por causa do seu amor?
Por amor perdi a Deus!
Por teu amor me perdi:
Agora vejo-me só
Sem Deus, sem amor, sem ti.
Nunca mais iria acabar... O livro é repositório da sensibilidade e da identidade portuguesas; da alma portuguesa, presente nos cancioneiros, consagrada em Camões e em Camilo... O amor absoluto, o amor pagão, à maneira das antigas romarias... o universo que se torna na coisa amada...
Subi ao céu e sentei-me
Duma estrela fiz encosto
Dei um beijo numa estrela
Cuidando que era em teu rosto.
E o mar? Nosso destino e nossa morte? Teria conhecido Fernando Pessoa estes versos recolhidos em Beduino, Estarreja?
Ó ondas do mar salgado
Donde vos vem tanto sal?
Vem das lágrimas choradas
Nas praias de Portugal.
E uma pergunta, que repito, há muito: para que servem o Ministério da Cultura, o Instituto Camões, a Imprensa Nacional, a Fundação Gulbenkian –se tantas obras como esta, pedaços de nós próprios, apodrecem, esquecidas, em bibliotecas ou em alfarrabistas, sujeitas ao bicho, e ninguém as reedita?!
E logo cita esta quadra, cantada pelo nosso povo:
-Ai Jesus, valha-me o céu!
Não sei que céu há-de ser?
Há-de ser o céu do amor
Que outro não pode haver.
O sentimento é de tal maneira forte, o desafio à lei da vida e aos desígnios de Deus, tão decidido, que se canta, também:
O meu coração do teu
É mui ruim de apartar!
É como a alma do corpo
Quando Deus a quer levar.
E como isso do amor, o encontro de duas almas, bem-no dizia Montaigne!, é coisa que demora séculos a preparar-se:
-No ventre da tua mãe
Já meu coração te amava.
E, realmente, duas almas se juntam:
Chamaste-me tua vida
Eu tua alma quero ser:
A vida acaba co’a morte
A alma não pode morrer.
Ou, ainda:
Hei-de amar-te até à morte,
Até depois de morrer;
Inda debaixo da terra,
Meu amor, podendo ser.
E a verdade é que, depois da morte, pode voltar o fantasma do (a) amado (a):
Já morri, já me enterrei,
Agora já estou aqui:
Nem a terra me comia
Sem me despedir de ti.
E a angústia do amado ou amada, ‘perdidos’ por causa do seu amor?
Por amor perdi a Deus!
Por teu amor me perdi:
Agora vejo-me só
Sem Deus, sem amor, sem ti.
Nunca mais iria acabar... O livro é repositório da sensibilidade e da identidade portuguesas; da alma portuguesa, presente nos cancioneiros, consagrada em Camões e em Camilo... O amor absoluto, o amor pagão, à maneira das antigas romarias... o universo que se torna na coisa amada...
Subi ao céu e sentei-me
Duma estrela fiz encosto
Dei um beijo numa estrela
Cuidando que era em teu rosto.
E o mar? Nosso destino e nossa morte? Teria conhecido Fernando Pessoa estes versos recolhidos em Beduino, Estarreja?
Ó ondas do mar salgado
Donde vos vem tanto sal?
Vem das lágrimas choradas
Nas praias de Portugal.
E uma pergunta, que repito, há muito: para que servem o Ministério da Cultura, o Instituto Camões, a Imprensa Nacional, a Fundação Gulbenkian –se tantas obras como esta, pedaços de nós próprios, apodrecem, esquecidas, em bibliotecas ou em alfarrabistas, sujeitas ao bicho, e ninguém as reedita?!
ps. as quadras que não identifico não as identificou Afonso Duarte...
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