...em Paris, no Louvre, a pirâmide de vidro de Ieoh Ming Pei, chinês de Cantão naturalizado americano...O primeiro camarada que ficou no caminho -título de um conto de Manuel da Fonseca, em Aldeia Nova-, ensinou-me certa luz da vida. Pertencia a uma espécie já extinta, a dos românticos dos anos 40/50 do século passado, o XX.
Lia, de Stefan Zweig, Carta de uma desconhecida, vibrava com António Nobre, a quem chamava “o purinho”, não perdia nenhum filme francês, acarinhava as poesias de Mário de Sá-Carneiro, ameaçou os pais que iria alistar-se na Legião Estrangeira, era um boémio incorrigível da noite lisboeta e foi amante involuntário de mulheres que se chegavam ao brilho da sua juventude desprevenida. Apaixonou-se, fatalmente. Lia e relia Cartas que me foram devolvidas, de Botto.
O que terá sido feito das cartas que lhe foram devolvidas? E das poesias que escreveu e se perderam, porque, nómada de quartos alugados, ia deixando tudo atrás de si, bagagem inútil, o mais levava-o dentro de si. Guardo, religiosamente, os voluminhos da Colecção ‘Novela’, que se vendiam a três escudos e cinquenta centavos e Ele lia e, depois, me oferecia...
Um vez, disse-me que Alida Valli, a actriz italiana que Visconti recuperou em Senso, era a mais bonita do mundo (muitos anos depois, cruzei-me com ela já de muita idade, na Piazza Navona, na esplanada do Tre Scalini; Ele, se a visse, voltaria a dizer-me que ela era a mulher mais bonita do mundo, porque, realmente, a beleza se mantinha imaculada em Alida Valli, diáfana, aristocrática..., astral, como Ele gostava de dizer). Outra vez, recomendou-me Marguerite de la Nuit, o filme de Claude Autan-Lara, adaptação da novelinha de Pierre Marc Orlan. Juntos, vimos, no velho Cinema da Guarda, Limelight, de Chaplin. Não calhou partilharmos Le Carrosse d’ Or, de Jean Renoir... A verdade é que ela, Alida, e eles, esses filmes, desenhavam o seu universo: a mulher inatingível, a noite e os vagabundos, o amor impossível, o ritmo fantástico de vidas sempre breves –como foi a sua.
Adorava Paris e trauteava a canção Sous le ciel de Paris, interpretada por Edith Piaf. Conheceu Paris a quinze dias da morte: lá lhe confirmaram uma leucémia galopante, que o vitimou com a idade de Cristo. Sempre o temeu, era um supersticioso ou um visionário. Bernardo Santareno, grande, nosso fraternal amigo, quando me abraçou, disse-me que Ele tinha uma estrela azul na fronte. Tudo isso, há 49 anos.
Hoje, calhou lembrar e procurar Piaff e lembrá-lo a Ele. E lembrar, porque lhe passei ao lado, Georges Brassens cuja expressão do olhar tem muito da humanidade aberta do amigo perdido...
Lia, de Stefan Zweig, Carta de uma desconhecida, vibrava com António Nobre, a quem chamava “o purinho”, não perdia nenhum filme francês, acarinhava as poesias de Mário de Sá-Carneiro, ameaçou os pais que iria alistar-se na Legião Estrangeira, era um boémio incorrigível da noite lisboeta e foi amante involuntário de mulheres que se chegavam ao brilho da sua juventude desprevenida. Apaixonou-se, fatalmente. Lia e relia Cartas que me foram devolvidas, de Botto.
O que terá sido feito das cartas que lhe foram devolvidas? E das poesias que escreveu e se perderam, porque, nómada de quartos alugados, ia deixando tudo atrás de si, bagagem inútil, o mais levava-o dentro de si. Guardo, religiosamente, os voluminhos da Colecção ‘Novela’, que se vendiam a três escudos e cinquenta centavos e Ele lia e, depois, me oferecia...
Um vez, disse-me que Alida Valli, a actriz italiana que Visconti recuperou em Senso, era a mais bonita do mundo (muitos anos depois, cruzei-me com ela já de muita idade, na Piazza Navona, na esplanada do Tre Scalini; Ele, se a visse, voltaria a dizer-me que ela era a mulher mais bonita do mundo, porque, realmente, a beleza se mantinha imaculada em Alida Valli, diáfana, aristocrática..., astral, como Ele gostava de dizer). Outra vez, recomendou-me Marguerite de la Nuit, o filme de Claude Autan-Lara, adaptação da novelinha de Pierre Marc Orlan. Juntos, vimos, no velho Cinema da Guarda, Limelight, de Chaplin. Não calhou partilharmos Le Carrosse d’ Or, de Jean Renoir... A verdade é que ela, Alida, e eles, esses filmes, desenhavam o seu universo: a mulher inatingível, a noite e os vagabundos, o amor impossível, o ritmo fantástico de vidas sempre breves –como foi a sua.
Adorava Paris e trauteava a canção Sous le ciel de Paris, interpretada por Edith Piaf. Conheceu Paris a quinze dias da morte: lá lhe confirmaram uma leucémia galopante, que o vitimou com a idade de Cristo. Sempre o temeu, era um supersticioso ou um visionário. Bernardo Santareno, grande, nosso fraternal amigo, quando me abraçou, disse-me que Ele tinha uma estrela azul na fronte. Tudo isso, há 49 anos.
Hoje, calhou lembrar e procurar Piaff e lembrá-lo a Ele. E lembrar, porque lhe passei ao lado, Georges Brassens cuja expressão do olhar tem muito da humanidade aberta do amigo perdido...
Juntei, aí em baixo, duas canções que desejo dividir. É só abrirem.
(...coisas de um romântico sobrevivente, duplo do último moicano, como me definiu o poeta (astral...) Nathan Zach, em Telavive... )
(...coisas de um romântico sobrevivente, duplo do último moicano, como me definiu o poeta (astral...) Nathan Zach, em Telavive... )
http://www.youtube.com/watch?v=uOXzGtlLGgw
http://www.youtube.com/watch?v=YQd0YPfQcNw
Ah! Oui!
ResponderEliminar:)