segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O dia de hoje: sempre muito valeu a verticalidade e a corência moral de um homem... ou a grandeza de uma vida breve

casa de Étienne de La Boétie, em Sarlat

Étienne de La Boétie




Étienne de La Boétie nasceu, em Sarlat, Périgord, no dia 1 de Novembro de 1530, e morreu a 18 de Agosto de 1563. Com 32 anos. O famoso e discutido ‘Discours de la Servitude Volontaire’, terá sido escrito em 1552, 1553, aos 22/ 23 anos. Mas o grande amigo de Montaigne não chegaria a vê-lo publicado. Provavelmente, por se tratar de um texto ousado, incómodo, inconformista, revolucionário, que atravessou os séculos, sendo-o sempre.

E foram os calvinistas os que primeiro o editaram, em 1574, numa edição pirata e limitada, só, em 1576, lançando a edição completa. De facto, edições piratas, já que La Boétie estabelecera Montaigne depositário dos seus manuscritos e executor testamenteiro dos seus textos . Montaigne hesitou, adiou, temeu?

Daí em diante, o ensaio de La Boétie correu mundo e foi objecto de entusiasmo, crítica, repúdio. E que apaixonou tanto os que vieram depois e mantém tão vivo, ainda hoje, o ‘Discours’? O que o tornou livro ‘clássico’, muitas vezes, citado em parelha, e por contraste, com ‘O Príncipe’, de Maquiavel?

La Boétie fala da liberdade individual; condena ditadores e totalitarismos; reclama os direitos dos cidadãos. E escreve tudo isso, muito jovem.

Será a causa de La Boétie não ser um ‘clássico’, no sentido académico, envelhecedor, bafiento, do termo: é um autor extraordinariamente vivo, senhor de ágil e generosa juventude, de frescura e sinceridade. Um homem de ideais, um amante da justiça e da coragem de lutarmos por ela, de a impor e de sermos nós próprios.

Michel de Moantaigne, no dia seguinte à morte de La Boétie, cuja agonia acompanhou, escreveu, ao seu próprio pai, uma carta, descrevendo o acontecimento. Julgo que nunca a enviou e só publicou excertos dela, em 1570 (e repare-se que o pai de Montaigne morreu em 1568).

Esses excertos são páginas espantosas, apaixonantes, consoladoras –e consoladoras porque Montaigne deixa o retrato de uma alma pura e superior, de um exemplo a seguir. Escolhi três passagens:

sobre a vida de um homem: ‘a nossa vida, que amamos tanto, não é mais que fumo e parcela de nada”.

mas, nesse grãozinho de nada, que somos nós, enquanto vivos, La Boétie descobre o dever de não o sermos de qualquer maneira:

ele interrompeu-me para me pedir [que mostrasse] que as nossas conversas... não as tínhamos apenas na boca mas suficientemente gravadas no coração e alma para as executarmos quando as ocasiões o exigissem...’

e, finalmente, sobre a própria morte prematura:

dada a inconstância das coisas humanas [a minha vida] não devia durar mais. Chegaria o tempo de me dedicar a negócios, de ver mil coisas desagradáveis como os incómodas da velhice... e a verdade é que vivi até agora com mais simplicidade e menos malícia do que teria vivido se Deus me deixasse viver até enriquecer e me acomodar nos negócios...’

Salinger, lembram-se?, escreveu: ‘todos temos de crescer mas alguns limitam-se a envelhecer’... Por fora e por dentro: com a tal malícia, ganância, indiferença, egoísmo -a doença que La Boétie não queria partilhar... Antes a morte.


E veio-me à ideia o nosso Antero... O Santo Antero.

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