quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O dia de hoje: é sempre bom salvar um poeta do esquecimento sobretudo quando especial...




Graças a Jorge de Sena e às ‘Líricas Portuguesas, 3ª Série" antologia que organizou e prefaciou, com inteligência e generosidade, fiquei a conhecer, hoje, um poeta admirável de quem nunca ouvira falar: Carlos Maria de Araújo (Lisboa, 1921-1962).

A generosidade de Jorge de Sena! Conheci Jorge de Sena, em Itália, no ano de 1976. Convivemos quinze dias, divididos, salomonicamente, entre Taormina e Roma. Tinham-me dito que Sena não era pessoa fácil, vaidoso e agressivo, umbiguista, só curando dele própria e da própria obra. Encontrei, porém, um homem atento, aberto aos outros, sujeito de candura, de uma boa ingenuidade adolescente, que os anos nunca apagariam. Só esse homem generoso salvaria do esquecimento (e creio não ser o único que ignorava a poesia de Carlos Maria de Araújo) um nome certamente tido por secundário, secundaríssimo, e confiá-lo aos leitores, esperando na sua sensibilidade.

Ao apresentar Araújo, Jorge de Sena escreveu: ‘Poesia extremamente despojada e densa, de uma intensa severidade formal e de vigorosa emoção contida numa expressão lapidar...’

e, acrescentou, referindo o exílio do poeta (de 1949 à morte absurda, num desastre de avião, sobre o Rio de Janeiro): ‘Nos seus ritmos curtos e sincopados, sob os quais todavia flui oculta uma simplicidade quase sentimental, esta poesia significa, como poucas das recentes, uma fulgurante definição do ‘exílio’ português, no que ele tem de amargo e de frustração, como no que, nele, resiste a tudo’ (não lembraria Jorge de Sena o próprio exílio de emigrante que nunca mais voltou?).

Das poesias seleccionadas por Sena, escolhi três:

O Nevoeiro Verde...

O nevoeiro verde
é uma torre
imprecisa nos contornos
mas exacta
Tem vinte e sete entradas
na muralha
conduzindo a uma escada
circular
Mas a escada não tem fim
nem tem princípio
pois seu último degrau
é o primeiro


O Verso

O verso
se esconde de mim
com medo de ser verso

É como a ave
Nocturna
que emudece
à luz pequena da manhã

O verso
tem medo de ser verso
em minha boca


Sétimo: da visita

A porta se abre
Sozinha
E depois fecha-se
Um eco
A mão antiga
A noite fria?

Jorge de Sena dá, ainda, notícia de três livros de Carlos Maria de Araújo: ‘Versos’, 1952, ‘Ofício de Trevas’, 1960 e ‘Nove Poemas’, 1962.





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