quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Salve-se, do analfabetismo galopante, o mais que se puder

Aquilino Ribeiro (1885-1963)



Aldeia (1946), de Aquilino Ribeiro, é uma das obras-primas da Literatura Portuguesa.


Leio Mestre Aquilino, como quem respira ar puro e com um prazer físico, carnal, de me chegar à língua portuguesa, vítima da incultura e da vulgaridade.


Anda por aí um acordo ortográfico, desastre anunciado pela imbecilização dos poderes e de algumas das universidades.


Hoje, manhãzinha, e antes que seja tarde e caia a foice editorial nos livros, abri, mais uma vez, Aquilino e deliciei-me.

Aqui te trago, enquanto é tempo, os três primeiros parágrafos de Aldeia, obra admirável , a sangrar de sangue e a brilhar em poesia nossos:



“Para a aldeia serrana a história reduz-se a duas partes como para o mundo de Deus se reduz a Velho e Novo Testamento. Idade Média falta. A estrada, o simpático e já obsoleto macadame é a sua linha fenomenal, acontecimento tão decisivo como a descoberta do caminho Marítimo para a Índia.

Antes da estrada que ligou a vila à aldeia e, por tabela, à capital do país e às capitais da Europa, o que sucedeu há menos de meio século, a aldeia estava mais perto da citânia que dum aglomerado rústico que se preze. As casas eram parentas próximas da orca, sem frestas, sem chaminé, com portal baixo, piso térreo, colmadas umas, cobertas outras a telha mourisca, sucedânea da tegula, cujos destroços a cada passo vêm á enxada do escavador de antiguidades. A sua armação era tudo o que há de mais primitivo: um carvalho deitado sobre o vértice das duas empenas; sobre essa trave vinham articular-se os caibros, que por sua vez ofereciam apoio às latas do telhado ou ao escama-peixe. Como pregos, tornos de madeira.

O fumo vadiava pelo interior, repulsado pelo caniço, sobrecéu de ripas em que as castanhas secavam e pilavam e o enchido de porco, distribuído em salpicões, chouriços, moiros, murcelas, se tornava o fumeiro lambe-se-lhe-os-beiços, de sabor imortal. Terra de soutos, semelhante aparato era o que o espigueiro é no Minho, região do Milho.”

2 comentários:

  1. Tenho que voltar a reler Aquilino. Li há uns anos e lembro-me que me custou um pouco a entrar na sua prosa. Li os "Cinco Reis de Gente".
    Obrigada por esta sugestão.

    ResponderEliminar
  2. É um grande escritor. Olhe, para Guarda, vou levar um único livro: "Aldeia"... e o dicionário do Cãndido de Figueiredo e o "Glossério Sucinto para melhor compreensão de Aquilino Ribeiro", de Elviro da Rocha Gomes (certamente, esgotado e... fundamnetal...).

    É um grande poeta português.

    ResponderEliminar