Antero, por ColumbanoO soneto junta duas personalidades extraordinárias: Santo Antero, que invoca, e José Régio, o autor.
A grandeza do primeiro reside na sinceridade da sua aventura e na coragem dela; também, na riqueza e profundidade de uma obra em carne viva, que encarna a tragédia do homem: a busca desesperada e necessária. Essencial e à beira do nada. Arrebatadora e absurda.
A unicidade do segundo está nos versos, na narrativa, no teatro, no ensaio, que partilham certos caminhos de Antero, os tais à beira do abismo, se destacam pela genialidade –e fazem de Régio o maior dos nossos escritores do século XX.
Foi publicado em 19 de Abril de 1942, no Correio dos Açores, e transcrevo-o de 16 Poemas não incluídos em Colheita da Tarde de José Régio, breve antologia, organizada por Alberto de Serpa, 1971, tiragem de 250 exemplares, “destinada a familiares, amigos íntimos, camaradas e admiradores provados do Poeta, além de, como é óbvio, ao depósito legal que salvaguarda a possibilidade de consulta a estudiosos”.
Antero
Formosura do corpo, mocidade,
Coração arrojado, ardente e brando,
Surtos de águia do espírito pairando
Nos píncaros que o sol primeiro invade.
Luz da razão, fervor, serenidade...
E por quê tantos dons se vão juntando
Num pobre ser humano e miserando
Que espia uma voraz fatalidade?
Por quê, se tudo, em seu redor, cai, passa,
E a tudo ele ergue os braços, nada abraça,
Em fumo, brumas, dúvidas, submerso?
Por quê, se, crente mísero!, a descrença
Todos os dons lhe esmaga até que o vença...?
-Todos... mas não o de dizê-lo em verso!
Coração arrojado, ardente e brando,
Surtos de águia do espírito pairando
Nos píncaros que o sol primeiro invade.
Luz da razão, fervor, serenidade...
E por quê tantos dons se vão juntando
Num pobre ser humano e miserando
Que espia uma voraz fatalidade?
Por quê, se tudo, em seu redor, cai, passa,
E a tudo ele ergue os braços, nada abraça,
Em fumo, brumas, dúvidas, submerso?
Por quê, se, crente mísero!, a descrença
Todos os dons lhe esmaga até que o vença...?
-Todos... mas não o de dizê-lo em verso!
O que Diz a Morte
ResponderEliminarDeixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...
Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. -
Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,
É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.
Antero de Quental, in "Sonetos"
Belíssimo soneto de Antero! Minha nova amiga: é bom saber que também gosta do grande Antero. Régio tinha por ele um imenso respeito. Já leu a correspondência de Antero? É muito importante. Está publicada na IN/CM.
ResponderEliminarPenso que não deve haver muita coisa de e sobre Antero que eu não tenha lido e relido... :))) uma paixão que roça quase um certo fanatismo saudável! :))
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