
O escritor Arnold Mandel, apontava, em 1963, a dessacralização da vida e o reaparecimento do Golem.
Quase 50 anos depois, esses fenómenos criaram fundas raízes.
Mas vamos, primeiro, ao segundo.
O Golem, figura da Cabala judaica, é o antecessor do Homunculus dos alquimistas medievais e do monstro do doutor Frankenstein, inventado pela escritora Mary Sheley, no século XIX.
Ou seja, um homem artificial, criado do nada, peça a peça, graças à sabedoria e habilidade de um artífice.
E ele aí está, hoje, em pleno esplendor: somos nós próprios, os novos escravos, peças da grande máquina do mercado neo-capitalista, que nos condiciona as escolhas, impõe a vontade, nos formata:
nos uniformiza.
E graças à sabedoria e à habilidade: ensina-nos a salivar como o célebre cão de Pavlov –agora, sem campainha: através da analfabetização, do esvaziamento do cérebro, da publicidade, da oferta do superficial e do banal.
De onde a dessacralização da vida: o Homem, de humano, passa a objecto e o seu destino passa a ser o das coisas cuja existência se fina quando deixam de servir.
Dentro homem desumanizado, perdido o nome e reduzido a número (tal qual se usa nos campos de concentração), há o vazio, em lugar da alma, da personalidade, da originalidade, da singularidade, da unicidade.
Caro Manuel; esse assunto dos últimos dois parágrafos do seu "post" já foi abordado na encíclica Populorum Progressio de Paulo VI, a qual, além de falar da cooperação entre os povos, denuncia o agravamento do desequilíbrio entre países ricos, critica o neocolonialismo (económico) e afirma o direito de todos os povos ao bem-estar e propõe a criação um grande Fundo mundial, sustentado por uma parte da verba das despesas militares, para vir em auxílio dos mais deserdados.
ResponderEliminarO texto critica tanto o 'liberalismo sem freio que conduziu ao "imperialismo internacional do dinheiro", como a coletivização integral e a planificação arbitrária, que priva os homens da liberdade e dos direitos fundamentais da pessoa humana. Teses que muito me impressionaram, quando nos meus verdes anos estudei Doutrina Social da Igreja no curso Filosófico-Teológico. Uma extracto, que vem na Wikipédia:
«A terra foi dada a todos e não apenas aos ricos. Quer dizer que a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário. Numa palavra, "o direito de propriedade nunca deve exercer-se em detrimento do bem comum, segundo a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos". Surgindo algum conflito "entre os direitos privados e adquiridos e as exigências comunitárias primordiais", é ao poder público que pertence "resolvê-lo, com a participação ativa das pessoas e dos grupos sociais"».
—Paulo VI, Encíclica Populorum progressio, § 23
Há lá coisa mais revolucionária que isto? Pena que andemos todos a dormir...
Abraço Beirão
João Valente
Nem sempre somos nós quem anda a dormir... a Igreja ressona...
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