'O beijo", 1907-8, de Gustav KlimtSessenta anos depois, talvez se encontre, nas livrarias, a reedição de um dos poemas de amor mais belos da Literatura Portuguesa: “Corpo Visível”, de Mário Cesariny de Vasconcelos (Assírio & Alvim/ Fundação Cupertino de Miranda). E digo talvez porque a tiragem limitou-se a mil exemplares e, caso os portugueses ainda apreciem a Literatura de qualidade, já se terá esgotado.
O domínio do mercado por grandes grupos que impõem literatura de cordel favorece os que não repararam no acontecimento (é um acontecimento, jóia excelentemente apresentada). A pacotilha distrai as atenções.
“Corpo Visível” (1950) reaparece, com a força que fez dele um dos grandes poemas da nossa literatura.
O poeta e o seu comparsa, “miséria deste tempo”, amam-se no fio da navalha. “Entre os blocos de prédios enevoados a bela mancha/ diurna dos calceteiros na praça/ e os dois amantes que não dormiram vão partir nos barcos da/ sua estrela”. Jogam coração e alma porque “A vida inteira Meu Amor/ SOMOS NÓS”.
E é no limite do precário, na selva, “na horrível sala dos passos perdidos”, que tudo se joga.
“Livres/ digo Livres/ e isso é não só a grande rua sem fim por onde vamos/ (...) mas é também as chamas que acendemos na terra”.
Buscam-se no “amor da grande solidão povoada de pequenas figuras cintilantes”. Fogem ao “Homem Sufocado”. Recusam a vulgaridade do coração, em que morremos, hoje.
Conscientes, porém: “somos a multidão a que eu chamo/ o homem e a mulher de todos os tempos áridos/ e como sempre não há lugar para nós nesta cidade”.
Mas não desistem: “Contra ele meu amor/ a sombra que fazemos/ no aqueduto do meu peito O MAR”.
O tudo ou nada.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 27/o2/11
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