Lara (Julie Christie) e Jivago (Omar Sharif), no filme 'Doutor Jivago', de David LeanLi o Doutor Jivago, de Boris Pasternak, quando apareceu no ocidente, isto é, nos idos de 1958.
Regressava de Paris, onde fora pela primeira vez, no célebre Sudexpress, que demorava quase 48 horas, de cá para lá e vice-versa.
Comprara a tradução francesa e ia lendo e recordo a expressão de censura de um padre espanhol, meu vizinho no compartimento, a reprovar-me a heresia de espreitar um autor russo, para ele, com certeza, “rojo”, vermelho, comunista...
E, ao correr das teclas, lembro esta enormidade salazarista: nos tempos do homem das botas, aos jogadores do Benfica não se podia chamar “vermelhos”, tinha de ser “encarnados” (e creio que a mesquinhice pegou)...
Doutor Jivago é, a meus olhos, um dos romances importantes do século XX.
Acontece-me reabri-lo e aqui deixo esta passagem, bem actual, em que Jivago descreve os dias passados, na granja isolada de Varikino, com Lara:
“Mais ainda que a comunidade de alma, unia-os o abismo que os separava do resto do mundo. Ambos sentiam a mesma aversão por tudo aquilo que o homem contemporâneo tem de fatalmente típico: o entusiasmo do comando, a ênfase espectacular e a mortal carência de largueza de espírito, que espalham tantos homens das ciências e das artes –conseguindo, assim, que o génio continue a ser uma coisa rara”.
Lara e Jivago recusavam o colectivismo castrador, o pensamento único, o racionalismo aleijado, que reduz a iniciativa do indivíduo.
A ditadura soviética acabou.
Ei-la substituída pela ditadura neo-capitalista, que nos condena à condição de novos escravos, a cães de Pavlov, a salivar quando tocam as campainhas.
Sempre actual. Esta análise demonstra a intemporalidade da obra e do autor.
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