Capa da 1ª edição, 1925Traduzir é trair, denunciam, desde o tempo da Maria Cachucha. E tinha razão quem assim falava.
Chega-nos de França uma notícia alarmante: narra o “le Nouvel Observateur” as desventuras de um dos melhores romances de Francis Scott Fitzgerald -"The Great Gatsby"-, agora publicado na Garnier-Flammarion, cuja tradução se deve a Julie Wolkenstein.
A intérprete, identificada como tradutora, abre a modificar o título: de “The Great Gatsby”, passa a “Gatsby”. E explica: “Fitzgerald referiu-se sempre ao romance nesses termos, donde se conclui que era o que preferia”. Depois, no final, interpreta a conhecidíssima frase “son of a bitch” (“filho da ...”) e põe “enfoiré” (“inútil”).
Corrige e actualiza, diz ela, duas traduções, de 1945 e de 1976.
E imagino-a que pergunta a Fitzgerald: “Não achas bem, ó meu?” E ele a responder: “Uauu!”
O magazine vai mais longe: noticia uma edição nos USA, das celebérrimas “Adventures of Huckleberry Finn”, de Mark Twain, em que se substitui a palavra, “nigger”, usada 219 vezes e considerada pejorativa, por “slave”, “politicamente correcta”.
Surgiu aí um “acordo ortográfico” cuja entrada em vigor há-de fazer estragos nos nossos escritores –e não só clássicos: de hoje. Muito de irresponsável politicamente correcto assistiu ao disparate que irá reflectir-se nas traduções em português e, de que maneira!, na prosa do cidadão comum.
Sabemos que as tivemos péssimas e fomos obrigados a ler, entre outros, um Dostoievski resumido e inqualificável. Essa “liberalidade” justificavam-na os tradutores com os pagamentos indecentes recebidos. Teriam razão. Mas traduzir é uma arte. E cito dois poetas, dois grandes, exemplares tradutores: Cabral do Nascimento e Pedro Tamen.
publicado na Página de Cultura de Jornal de Notícias, de 20/02/11, aqui retocado
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