
Naguib Nahfouz: um extraordinário contador de histórias...Quem conta um conto acrescenta um ponto, diz o povo.
Esse acrescento nem sempre é deturpação da história, acontece iluminá-la: recuperar o omitido, repor verdades encobertas ou açucaradas.
Naguib Mahfouz (1911-2006) pertence ao número dos narradores incómodos: aponta a ferida onde ela sangra. E de tal modo que, já Nobel e mundialmente admirado e respeitado, os islamistas fundamentalistas, em 1994, tentaram silenciá-lo e esfaquearam-no.
A obra estava praticamente feita: cerca de 50 romances, 350 contos, guiões cinematográficos, ensaios e artigos. Mas não deixou de ser uma brutalidade que magoa. Compreende-se: Mahfouz sacrificara tudo à escrita e tentarem cortar-lhe o pescoço traduzia incompreensão e ingratidão. Porém, nunca deixou de trabalhar, quase cego, limitado, ele, homem de café e diálogo, outra das suas maneiras de intervir.
“Em todos os meus textos, encontrareis a política, (...) o eixo real do nosso pensamento”. Testemunho crítico de um mundo -assim se poderia definir a obra imensa de Mahfouz.
Na admirável “Trilogia do Cairo”, em “Os rapazes de Gebelawi” (bairro onde cresceu) e no, recentemente publicado entre nós, “O Cairo Novo” (Civilização), encontramos o autor empenhado na denúncia das iniquidades e da hipocrisia.
Paralelamente, o pintor da alma egípcia. Mahfouz revela a complexidade de um mundo nostálgico de grandeza, que ferve, ansioso por partir as grilhetas condicionadoras e de se redescobrir e afirmar, livre. Mahfouz era um homem livre, rebelde ao cabresto. Daí que os fundamentalistas o perseguissem e o “establishment” -as instituições- o olhasse de lado.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje
Muito interessante!
ResponderEliminarHá homens que nasceram para se tornarem eternos. Aqui está um exemplo. Nunca li nada dele.
Gostei bastante da imagem utilizada. O rato é o retrato da hipocrisia, será?
Os pássaros a liberdade. A "liteira" é que me ultrapassa, ou será que é o prenúncio que tudo irá permanecer como estava? Da tirania dá-se um salto para a oligarquia?
Abraço e parabéns pelo artigo!
De tudo isso, um pouco...
ResponderEliminarLeia o que diz o professor árabe.
E repare na fotografia da Praça Tahir...
Um abraço!