domingo, 13 de fevereiro de 2011

Uma testemunha implacável





Naguib Nahfouz: um extraordinário contador de histórias...




Quem conta um conto acrescenta um ponto, diz o povo.


Esse acrescento nem sempre é deturpação da história, acontece iluminá-la: recuperar o omitido, repor verdades encobertas ou açucaradas.


Naguib Mahfouz (1911-2006) pertence ao número dos narradores incómodos: aponta a ferida onde ela sangra. E de tal modo que, já Nobel e mundialmente admirado e respeitado, os islamistas fundamentalistas, em 1994, tentaram silenciá-lo e esfaquearam-no.


A obra estava praticamente feita: cerca de 50 romances, 350 contos, guiões cinematográficos, ensaios e artigos. Mas não deixou de ser uma brutalidade que magoa. Compreende-se: Mahfouz sacrificara tudo à escrita e tentarem cortar-lhe o pescoço traduzia incompreensão e ingratidão. Porém, nunca deixou de trabalhar, quase cego, limitado, ele, homem de café e diálogo, outra das suas maneiras de intervir.


“Em todos os meus textos, encontrareis a política, (...) o eixo real do nosso pensamento”. Testemunho crítico de um mundo -assim se poderia definir a obra imensa de Mahfouz.


Na admirável “Trilogia do Cairo”, em “Os rapazes de Gebelawi” (bairro onde cresceu) e no, recentemente publicado entre nós, “O Cairo Novo” (Civilização), encontramos o autor empenhado na denúncia das iniquidades e da hipocrisia.


Paralelamente, o pintor da alma egípcia. Mahfouz revela a complexidade de um mundo nostálgico de grandeza, que ferve, ansioso por partir as grilhetas condicionadoras e de se redescobrir e afirmar, livre. Mahfouz era um homem livre, rebelde ao cabresto. Daí que os fundamentalistas o perseguissem e o “establishment” -as instituições- o olhasse de lado.


publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

2 comentários:

  1. Muito interessante!
    Há homens que nasceram para se tornarem eternos. Aqui está um exemplo. Nunca li nada dele.

    Gostei bastante da imagem utilizada. O rato é o retrato da hipocrisia, será?
    Os pássaros a liberdade. A "liteira" é que me ultrapassa, ou será que é o prenúncio que tudo irá permanecer como estava? Da tirania dá-se um salto para a oligarquia?

    Abraço e parabéns pelo artigo!

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  2. De tudo isso, um pouco...

    Leia o que diz o professor árabe.

    E repare na fotografia da Praça Tahir...

    Um abraço!

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