sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O músico de Deus

Interior da Basílica de São Marcos, Veneza




-Quem á aquele homem? –perguntei a Aldo Zari, o pintor das mãos de oiro.

-Um dia hei-de contar-te a sua história.


‘Aquele’ ia à nossa frente pela Calle Della Mandola, direito a Sant’Angelo, em Veneza. Ia dentro de um fato preto e muito usado, com papéis debaixo do braço. Alto e gordo, o rabo levantava-lhe o casaco e carregava uns sapatos cambados. As calças não lhe chegavam aos pés e aparecia, entre os sapatos e a ponta das calças, o branco das meias enroladas por cima da carne rósea. Tinha pouco cabelo que se colava à nuca e ao pescoço suado. Era em Julho, o tempo scirocco, do vento quente de sudeste, húmido e pesado. O homem arrastava-se, mas decidido: o corpo não chocava com ninguém e parecia obstinado e vago, isolado no aparente desconcerto.


-Então? -insisti.

-Fica para outra vez.


Meteram-se ao meio os amigos; parámos a beber numa osteria e perdemo-lo de vista. À saída da taverna, nem perguntei por ele. Conhecia-o há muito tempo das ruas e das igrejas de Veneza. Sempre com o fato preto coçado e o maço de papéis debaixo do braço. Nas ruas, passava como disse: sem olhar para ninguém, livre e sozinho, e com uma grande angústia: como se estivesse à procura, dentro de si, de uma resposta e ele não chegasse –porque também o vi de frente, com a barba por fazer, os olhos fixos e o colarinho da camisa branca sujo e relaxado e a barriga inchada; nas igrejas, afastava-se, procurava os lugares sombrios, estático e de cabeça baixa, a murmurar. Ficava assim muito tempo e percebi que o que queria era que o deixassem. Que eu olhasse para ele, era-lhe indiferente: não dava por isso. Mas eu encontrei-o tantas vezes que quis saber: quem era aquele homem deselegante, desleixado e triste, que me parecia diferente dos outros?


-É um louco. –respondeu-me Aldo- Frequentou o Conservatório, formou-se e concorreu a um lugar no Coro de Pádua. Reprovaram-no e ficou assim.

-Mas era um mau cantor?

-Não, antes pelo contrário, era um excelente tenor. O que aconteceu foi que não tinha apoios.

-E esta mania das igrejas?

-O Coro de Pádua era um coro gregoriano- explicou-me.

-Não tem família?

-Claro que tem! Mas não conseguem ajudá-lo. É um caso perdido.

-Ouviste-o cantar?

-Ouvi, em San Stae, com a mesma cara...

-Qual?

-A que tu lhe conheces: abismada e convencida, como se entrevisse outros mundos.

E, com um estranho sorriso –troçava do louco ou deixara-se fascinar por ele?- acrescentou:

-Como se estivesse cada vez mais perto desses mundos e achasse que poderia chegar até eles.

Virou-se para mim, agora a rir-se, mas a rir-se de mais para que fossem verdade a segurança e a troça:
-Teve sempre aquela mania de Deus. Cantava nas igrejas, estudava, aperfeiçoava-se... E meia dúzia de filhos da mãe chumbaram-no. Nunca mais se recompôs.


A última vez que o vi foi em São Marcos, com as pautas de música a escorregarem-lhe das mãos. Devia ser no fim, porque, pouco depois, a família internou-o. O grande corpo tremia e o suor -e era Inverno- cobria-lhe a testa, as mãos que não seguravam os papéis, o peito atrás da camisa que se abria porque respirava fundo. Respirava fundo e não se afastava dali, como um cão perseguido, um abandonado.

Voltámos, a falar dele, na esplanada do Paolin, e alguém exclamou,:
-Aquele gajo nunca percebeu que não fazia falta!...

E, a ajeitar-se, concluiu:

-Era um ambicioso!



in Novas Crónicas Italianas, Editorial Teorema, 1994

5 comentários:

  1. Claro que fez falta.
    Uma bela voz que ninguém conheceu.

    Bom fim de semana
    Isabel

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  2. Um abandonado, não é? A personagem é real e tenho-a bem presente na memória.

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  3. Que história...
    Não houve milagre para ele!
    Talvez tivesse cantado no internato.
    Um caso perdido?
    Ambicioso?
    Ambicioso não creio. Um caso perdido...
    Ninguém lhe deu a mão; mesmo fechada, devagarinho, a mão dele podia abrir-se lentamente para receber e poder dar.
    Dou graças por o ter conhecido, Manuel Poppe!

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  4. É uma história verdadeira. Eu limitei-me a contá-la e tentar recriar, mostrar, arrancar ao anonimato esse personagem poético e trágico: o músico de Deus.

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  5. Limitei-me a tentar recriar e mostrar, salvar do esquecimento, essa figura angustiada, poética e trágica: o músico de Deus.

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