Interior da Basílica de São Marcos, Veneza-Quem á aquele homem? –perguntei a Aldo Zari, o pintor das mãos de oiro.
-Um dia hei-de contar-te a sua história.
‘Aquele’ ia à nossa frente pela Calle Della Mandola, direito a Sant’Angelo, em Veneza. Ia dentro de um fato preto e muito usado, com papéis debaixo do braço. Alto e gordo, o rabo levantava-lhe o casaco e carregava uns sapatos cambados. As calças não lhe chegavam aos pés e aparecia, entre os sapatos e a ponta das calças, o branco das meias enroladas por cima da carne rósea. Tinha pouco cabelo que se colava à nuca e ao pescoço suado. Era em Julho, o tempo scirocco, do vento quente de sudeste, húmido e pesado. O homem arrastava-se, mas decidido: o corpo não chocava com ninguém e parecia obstinado e vago, isolado no aparente desconcerto.
-Então? -insisti.
-Fica para outra vez.
Meteram-se ao meio os amigos; parámos a beber numa osteria e perdemo-lo de vista. À saída da taverna, nem perguntei por ele. Conhecia-o há muito tempo das ruas e das igrejas de Veneza. Sempre com o fato preto coçado e o maço de papéis debaixo do braço. Nas ruas, passava como disse: sem olhar para ninguém, livre e sozinho, e com uma grande angústia: como se estivesse à procura, dentro de si, de uma resposta e ele não chegasse –porque também o vi de frente, com a barba por fazer, os olhos fixos e o colarinho da camisa branca sujo e relaxado e a barriga inchada; nas igrejas, afastava-se, procurava os lugares sombrios, estático e de cabeça baixa, a murmurar. Ficava assim muito tempo e percebi que o que queria era que o deixassem. Que eu olhasse para ele, era-lhe indiferente: não dava por isso. Mas eu encontrei-o tantas vezes que quis saber: quem era aquele homem deselegante, desleixado e triste, que me parecia diferente dos outros?
-É um louco. –respondeu-me Aldo- Frequentou o Conservatório, formou-se e concorreu a um lugar no Coro de Pádua. Reprovaram-no e ficou assim.
-Mas era um mau cantor?
-Não, antes pelo contrário, era um excelente tenor. O que aconteceu foi que não tinha apoios.
-E esta mania das igrejas?
-O Coro de Pádua era um coro gregoriano- explicou-me.
-Não tem família?
-Claro que tem! Mas não conseguem ajudá-lo. É um caso perdido.
-Ouviste-o cantar?
-Ouvi, em San Stae, com a mesma cara...
-Qual?
-A que tu lhe conheces: abismada e convencida, como se entrevisse outros mundos.
E, com um estranho sorriso –troçava do louco ou deixara-se fascinar por ele?- acrescentou:
-Como se estivesse cada vez mais perto desses mundos e achasse que poderia chegar até eles.
Virou-se para mim, agora a rir-se, mas a rir-se de mais para que fossem verdade a segurança e a troça:
-Teve sempre aquela mania de Deus. Cantava nas igrejas, estudava, aperfeiçoava-se... E meia dúzia de filhos da mãe chumbaram-no. Nunca mais se recompôs.
A última vez que o vi foi em São Marcos, com as pautas de música a escorregarem-lhe das mãos. Devia ser no fim, porque, pouco depois, a família internou-o. O grande corpo tremia e o suor -e era Inverno- cobria-lhe a testa, as mãos que não seguravam os papéis, o peito atrás da camisa que se abria porque respirava fundo. Respirava fundo e não se afastava dali, como um cão perseguido, um abandonado.
Voltámos, a falar dele, na esplanada do Paolin, e alguém exclamou,:
-Aquele gajo nunca percebeu que não fazia falta!...
E, a ajeitar-se, concluiu:
-Era um ambicioso!
in Novas Crónicas Italianas, Editorial Teorema, 1994
Claro que fez falta.
ResponderEliminarUma bela voz que ninguém conheceu.
Bom fim de semana
Isabel
Um abandonado, não é? A personagem é real e tenho-a bem presente na memória.
ResponderEliminarQue história...
ResponderEliminarNão houve milagre para ele!
Talvez tivesse cantado no internato.
Um caso perdido?
Ambicioso?
Ambicioso não creio. Um caso perdido...
Ninguém lhe deu a mão; mesmo fechada, devagarinho, a mão dele podia abrir-se lentamente para receber e poder dar.
Dou graças por o ter conhecido, Manuel Poppe!
É uma história verdadeira. Eu limitei-me a contá-la e tentar recriar, mostrar, arrancar ao anonimato esse personagem poético e trágico: o músico de Deus.
ResponderEliminarLimitei-me a tentar recriar e mostrar, salvar do esquecimento, essa figura angustiada, poética e trágica: o músico de Deus.
ResponderEliminar