sábado, 19 de fevereiro de 2011

A alegria de viver

André Gide (1869-1951)




Gide morreu há sessenta anos. Do “Journal”, transcrevo: “Não creio a morte difícil para aqueles que tenham amado a vida. Pelo contrário...”


Pierre Lepape, conclui a biografia -uma das muitas biografias que se escreveram- “André Gide, Le messager” (Seuil, 1997), assim: “O túmulo de Gide está nu. A pedra partiu-se num dos ângulos. Amarelida, gasta, comida pelo musgo. Adivinha-se a inscrição -André Gide 1869-1951-, quase já ilegível e destinada a desaparecer.” Interroga-se: “uma homenagem da vida”?


Talvez: a homenagem justa, porque a amou intensamente e sabia que era no momento e ali que ela se deveria e poderia possuir e gozar.


No fabuloso “Les Nourritures Terrestres”, Gide escreveu: “O mais pequeno instante da vida é mais forte do que a morte e nega-a”.


E, adiante: “Nataniel ensinar-te-ei o fervor”.


Agarrar o instante, cumprir a obrigação da alegria.


“À medida que se reduz o meu tempo de vida, cada vez menos suporto o tédio”, anotou. Depois, e por isso, era-lhe indiferente sobreviver em efígie ou que lhe cuidassem do túmulo.


E com razão: quem quiser encontrá-lo que o procure na obra.


Entretanto, cabia-lhe interpelar a vida: “Não passa um dia em que não me volte a interrogar sobre tudo”.


Foi um grande libertador, um grande inquietador. Em “Ainsi-soit-il”, livro póstumo, meditação final, avisa: “alguns procuram e não sabem no que se fiar; a esses digo: acreditem nos que procuram, duvidem dos que encontram; duvidem de tudo mas nunca duvidem de vós próprios”.


E, a seis meses da morte, escreveu, no “Journal”: “Acredito no mundo espiritual e tudo o resto não me diz nada. Mas esse mundo espiritual, penso que existe, apenas, através de nós, em nós; que depende do suporte que lhe dá o nosso corpo”.


E da alma: “Sim, acredito na alma. Acredito nela como na luz do fósforo. Mas não posso imaginar a luz do fósforo sem a madeira que a produz”.


Era um homem da Terra, que desvendava o sentido das coisas da terra e, nelas, surpreendia o sinal da eternidade.


Marcou gerações. E, solto do limbo, ressuscita. Ouvi, em Veneza, nos finais de 70, a Sartre (que tanto o criticou): “A verdade é que Gide é quem tinha razão!”



publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias, 19/02/11 (aqui, ligeiramente retocado)

3 comentários:

  1. Acredito que viver a vida intensamente é vivê-la sobretudo a partir do coração, dos sentimentos.E procurar...questionar...aprender...
    A alma...se quando o fósforo acaba de arder a luz se apaga, quando o corpo morre a alma extinguir-se-á?
    Acredito que algures, muito para lá da nossa compreensão algo de nós permanece.
    Talvez seja apenas uma espécie de consolação para quem ama a vida.Para quem não suporta que quando morre um ente querido tudo se acaba num pedaço de terra...
    Não sei, mas acredito que numa outra dimensão,a alma (seja ela o que for )permanece.
    Li André Gide há muitos anos e gostei do pouco que li dele.
    Hei-de ler mais.
    Um bom fim de semana
    Isabel

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  2. Manuel Poppe,
    Este texto que é uma ode à vida é riquíssimo!
    E quem não viveu a vida intensamente?

    O tédio é a morte lenta...concordo em absoluto.

    "Agarrar o instante, cumprir a obrigação da alegria".
    agarrar o instante?...( )

    “A verdade é que Gide é quem tinha razão!” Sartre. Quem diria que Sartre lhe iria dar razão?
    A existência do mundo espiritual em nós, sempre achei que Sartre acabaria por se contradizer.
    Que belos são estes pensamentos! Tornou o meu Sábado menos cinzento abrindo uma nesga de luz neste dia chuvoso.
    Obrigada por existir!

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  3. Não sei o que irá acontecer.

    Tenho uma pema infinita, ao pensar que posso não encontrar mais os meus amores.

    Eles são a minha vida.

    A vida é a minha vida.

    E qualquer coisa me sossega: qualquer coisa me diz que há outro mundo e que não teria sentido sem amor.

    Ora sendo os meus amores o Amor lá os reencontrarei.

    Como?, isso não sei, porque ainda não estou "lá".

    E deixo aos racionalistas, aos cientistas, o riso que lhes provoca lerem isto.

    Deus lhes perdoe.

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