André Gide (1869-1951)Gide morreu há sessenta anos. Do “Journal”, transcrevo: “Não creio a morte difícil para aqueles que tenham amado a vida. Pelo contrário...”
Pierre Lepape, conclui a biografia -uma das muitas biografias que se escreveram- “André Gide, Le messager” (Seuil, 1997), assim: “O túmulo de Gide está nu. A pedra partiu-se num dos ângulos. Amarelida, gasta, comida pelo musgo. Adivinha-se a inscrição -André Gide 1869-1951-, quase já ilegível e destinada a desaparecer.” Interroga-se: “uma homenagem da vida”?
Talvez: a homenagem justa, porque a amou intensamente e sabia que era no momento e ali que ela se deveria e poderia possuir e gozar.
No fabuloso “Les Nourritures Terrestres”, Gide escreveu: “O mais pequeno instante da vida é mais forte do que a morte e nega-a”.
E, adiante: “Nataniel ensinar-te-ei o fervor”.
Agarrar o instante, cumprir a obrigação da alegria.
“À medida que se reduz o meu tempo de vida, cada vez menos suporto o tédio”, anotou. Depois, e por isso, era-lhe indiferente sobreviver em efígie ou que lhe cuidassem do túmulo.
E com razão: quem quiser encontrá-lo que o procure na obra.
Entretanto, cabia-lhe interpelar a vida: “Não passa um dia em que não me volte a interrogar sobre tudo”.
Foi um grande libertador, um grande inquietador. Em “Ainsi-soit-il”, livro póstumo, meditação final, avisa: “alguns procuram e não sabem no que se fiar; a esses digo: acreditem nos que procuram, duvidem dos que encontram; duvidem de tudo mas nunca duvidem de vós próprios”.
E, a seis meses da morte, escreveu, no “Journal”: “Acredito no mundo espiritual e tudo o resto não me diz nada. Mas esse mundo espiritual, penso que existe, apenas, através de nós, em nós; que depende do suporte que lhe dá o nosso corpo”.
E da alma: “Sim, acredito na alma. Acredito nela como na luz do fósforo. Mas não posso imaginar a luz do fósforo sem a madeira que a produz”.
Era um homem da Terra, que desvendava o sentido das coisas da terra e, nelas, surpreendia o sinal da eternidade.
Marcou gerações. E, solto do limbo, ressuscita. Ouvi, em Veneza, nos finais de 70, a Sartre (que tanto o criticou): “A verdade é que Gide é quem tinha razão!”
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias, 19/02/11 (aqui, ligeiramente retocado)
Acredito que viver a vida intensamente é vivê-la sobretudo a partir do coração, dos sentimentos.E procurar...questionar...aprender...
ResponderEliminarA alma...se quando o fósforo acaba de arder a luz se apaga, quando o corpo morre a alma extinguir-se-á?
Acredito que algures, muito para lá da nossa compreensão algo de nós permanece.
Talvez seja apenas uma espécie de consolação para quem ama a vida.Para quem não suporta que quando morre um ente querido tudo se acaba num pedaço de terra...
Não sei, mas acredito que numa outra dimensão,a alma (seja ela o que for )permanece.
Li André Gide há muitos anos e gostei do pouco que li dele.
Hei-de ler mais.
Um bom fim de semana
Isabel
Manuel Poppe,
ResponderEliminarEste texto que é uma ode à vida é riquíssimo!
E quem não viveu a vida intensamente?
O tédio é a morte lenta...concordo em absoluto.
"Agarrar o instante, cumprir a obrigação da alegria".
agarrar o instante?...( )
“A verdade é que Gide é quem tinha razão!” Sartre. Quem diria que Sartre lhe iria dar razão?
A existência do mundo espiritual em nós, sempre achei que Sartre acabaria por se contradizer.
Que belos são estes pensamentos! Tornou o meu Sábado menos cinzento abrindo uma nesga de luz neste dia chuvoso.
Obrigada por existir!
Não sei o que irá acontecer.
ResponderEliminarTenho uma pema infinita, ao pensar que posso não encontrar mais os meus amores.
Eles são a minha vida.
A vida é a minha vida.
E qualquer coisa me sossega: qualquer coisa me diz que há outro mundo e que não teria sentido sem amor.
Ora sendo os meus amores o Amor lá os reencontrarei.
Como?, isso não sei, porque ainda não estou "lá".
E deixo aos racionalistas, aos cientistas, o riso que lhes provoca lerem isto.
Deus lhes perdoe.