terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Uma poesia de Luís Veiga Leitão

Luís Veiga Leitão (1975-1987), perseguido pelo regime salazarista, exilou-se no Brail, em 1967, regressou a Portugal depois do 25 de Abril, mas faleceu em Niteroi, Brasil




Carta de Luís Veiga Leitão a Ruy Luís Gomes



Acre e dura carne



Pátria onde nasci Desespera
vê-la tão seca na matriz
Acre e dura carne (austera)
no coração do meu país

Flor de saibro O rosto mole
vem da névoa cega e fria
Rastros de carro do sol
carregando o corpo do dia

Ondas de pedra –a fúria nos arcos
da voz: Morda aguente e fique!
E os pinhais –cascos de barcos
que navegaram a pique

Mentira o Fado que se toca:
Na pedra mais pedra mais secreta
abre-se e rasga-se uma boca
onde um pássaro canta e dejecta

Lá a cabra o vento o poeta
naturais de alma e corpo ao léu
trazem nos ventres o demo
e à flor dos cornos o céu

in Dispersas, Ciclo de Pedras

Sem comentários:

Enviar um comentário