sábado, 26 de setembro de 2009

O dia de hoje: vou passá-lo a reler o maravilhoso Antero...

...monumento a Antero de Quental um homem que era deste e de outros mundos...


Aqui deixo quatro breves apontamentos de Antero de Quental, o Santo Antero, assim lhe chamava Eça, o homem que não veio à procura do sossego de pantufeiro e da reforma excelente, excelentemente antecipada, porque seria, como é para tantos, tantíssimos, reformar-se, logo à partida, de si próprio e da própria dignidade, da própria responsabilidade... e pôr-se, como tantos, tantíssimos, a acariciar o seu cuzinho...

[em Ponta Delgada] ‘O que há hoje sobretudo não é tanto a ignorância ou o erro, a infâmia ou a loucura: é a atrofia do coração junta à futilidade do ânimo. Quem cura da justiça? Cada qual quer viver, gozar! Nós somos uns pobres doidos, maus e cruéis para nós mesmos, que nos comprazemos em destruir e soterrar todas as fontes dos nossos bens’.

[em Paris] ‘Este trabalho é triste como todo o trabalho moderno, forçado, partido e dividido, desnatural e injusto. Para sofrer é necessário ter em vista outra coisa, essa justa, ou as afeições de família ou o fanatismo nobre das ideias de que se é apóstolo.’

[em Ponta Delgada] ‘Tenho assentado definitivamente entrar de novo na comunhão dos destinos portugueses. Em toda a parte se pode ser homem.’

[em Causas da Decadência dos Povos Peninsulares] ‘O nosso génio é criador e individualista: precisa rever-se nas suas criações’.

O que continua a haver -passado mais de um século- e a haver mais agudamente, é a alterofobia, a indiferença, o egoísmo, a resignação e a aceitação de sermos sub-fetos (como dizia Tomaz de Figueiredo)...

O que há, sempre mais e mais, é a nova escravatura: o trabalho despersonalizado, que nos leva a sacrificar-lhe todo o nosso tempo vital, a sacrificar-lhe a própria alma –trabalho de homem que se transformou em peça da grande máquina neoliberalista... o trabalho injusto...

Em toda a parte se pode ser homem... Em toda a parte e a todo o momento, se pode e deve lutar pela reconquista da condição de Homem...

O nosso individualismo não o entendo -nem Antero o entenderia- como egoísmo: é a vontade de dar, de nós, o mais verdadeiro e o melhor, dentro de uma sociedade justa... Quando nos deixam trabalhar e aprender a trabalhar...

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