sábado, 26 de setembro de 2009

O dia de hoje: ainda sobre Mário Sacramento e sobre a masmorra inquisitorial de que saímos...

..Mário Sacramento, algures em França, longe do Reino Cadaveroso, a respirar...

Na carta-testamento, datada de 7 de Abril de 1967 e transcrita no livro cujo título abre esta nota, Livro de Amizade, Lembrando Mário Sacramento (Húmus, 1969), o escritor reclamava: “Façam um mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!” Mário Sacramento morreu dois anos depois (há quatro décadas, portanto) e, por estas bandas, muitas coisas mudaram.


Para melhor? Sem dúvida, para melhor. Abriram-se janelas que estavam barradas, calafetadas, fugiram as traças e libertaram-se os horizontes proibidos. Mário Sacramento foi um dos muitos intelectuais que sofreram a ditadura e a censura. Talvez -eu diria certeamente-, o crime maior do salazarismo esteja nisso: na congelação da cultura.


Proibiu a Cultura. Perseguiu a Cultura. Mandou matar, por medo à Cultura. E, quando os seus agentes não mataram, de facto, torturaram e sufocaram até à morte interior, até à agonia do Espírito, quantos lutaram e quiseram construir um país livre, um país Culto, europeu.


O Portugal de Salazar foi uma masmorra.

Como teria sido Portugal, como seria hoje, se os portugueses pudessem ter pensado e expressado aquilo que pensavam? Sim, como seria hoje, porque ainda hoje andamos a pagar a obscuridade imposta pelo reino da estupidez salazarista –e muito continua a custar sair dele, construir outro país, de alto a baixo. O “cordão sanitário salazaresco” atrasou este país, devolveu-o ao atraso em que ele viveu, desde o Séc. XVI, e separou-o do movimento da Terra: do avanço cultural e, por isso, obviamente, científico, obviamente social, que, além fronteiras, acontecia.

Reli, há dias, o estudo de Mário Sacramento, Eça de Queirós, Uma Estética da Ironia. É uma obra fundamental, onde a inteligência, a sensibilidade e a independência nos empolgam. E tenho presente o excelente longo ensaio, também incontornável, Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda. Foi, ontem, apresentada, no “Museu do Neo-Realismo”, a obra referida acima, que homenageia um homem de diálogo, em tempo de peste onde muitos se viram forçados a andar de costas uns para os outros.



Mário Sacramento bateu-se, exemplarmente, pelo encontro dos homens separados –por uma Cultura ecuménica. Era um criador de Espírito e o Espírito rejeita os dogmas. Para reencontrar a grandeza moral e a riqueza intelectual de Mário Sacramento, que é um exemplo e, infelizmente, também um trágico exemplo, voltem a publicar-se e leiam-se e releiam-se as suas obras.

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