sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O dia de hoje: intervalo para respirar no meio dum vendaval feito de raiva inveja ódio e pouco quase nenhum verdadeiro amor ao outro...

... Pablo Picasso 'A vida' ... ela existe... basta conquistá-la
Ramón J. Sender


...uma pequena obra-prima...


Descobri Ramón José Sender nos meados dos anos 60, para mim, a revelação de um dos mais poderosos romancistas do século XX. De Sender, exilado nos Estados-Unidos, poucas obras estavam à venda na Espanha franquista. Requiem por un campesino español, pequena obra-prima, comprei-o, clandestinamente, numa pequena livraria de Madrid... Aqui, em Portugal, raros o conheciam e o poeta Armindo Rodrigues, talvez o único, surpreendeu-me, ao dizer que sim, que também ele o admirava...

Ramón J. Sender, desde a primeira hora, um lutador, um combatente, escreveu, sobre a trágica Guerra Civil de Espanha, em que perdeu mulher e família, o romance Los Cinco Libros de Ariadna, leitura obrigatória, e, antes, em plena guerra, o longo ensaio Contraataque, que lhe alienou, na independência radical, muitas simpatias e lhe trouxe outros inimigos, para além dos falangistas. Era um homem estruturalmente livre, avesso a dogmas e rebanhos –generoso e humaníssimo.

No meio deste vendaval, que anunciei, desta corrida ao poder, cheia de insultos, intrigas, golpes baixos, acusações infundadas, calúnias, em suma, de tudo quanto serve para destruir o outro -no caso, o adversário político-;

revoltado, farto, nauseado, reabri um livro do grande Sender, que muito me impressionou e de quando em quando revisito: Crónica del Alba.

E reli a passagem seguinte, breve passagem do diálogo entre o herói, Pepe Garcés, e o humilde irmão leigo cuja obra escultórica -um nada, escondido num estúdio-arrecadação do colégio aragonês- tocara o adolescente inquieto e irrequieto; diz-lhe o irmão leigo:

‘Ya veo hermanito. Quieres la aureola para ti y en todo caso para tus amigos. Y eso no es justo. Hay que ser generoso y desear el bien de los otros. No sólo en eso de la aureola sino en todo. Tu sabes? Si fueras mayor, me comprenderías. Todo lo que vive merece respeto y amor. Lástima. Un día serás mayor. Y quizà seguirás siendo egoísta y orgulloso. Y yoo no me atreveré a hablarte, hermano. Por eso te hablo ahora. Te vere´quando seas grande y no sabré que decir. Porque seré tan inferior a ti que me dará vergüenza mirarte. Oye-me bien, ahora. Podemos tenerlo todo, pero todo lo perdemos en la vida. Todo menos lo que hemos dado voluntariamente. Es decir, que sòlo la generosidad y el amor nos salvan, hermanito. Que és el amor? Ante todo, el deseo de no ser más que los otros y de hacer lo que nos toca en la vida...’

Sobre isso, o que poderíamos discutir! Mas eu acredito que nem todos os adolescentes carregam já a mediocridade que virá a vitimar a maior parte deles: a mesquinhez dos que, ao longo dos anos, se limitam a envelhecer... a imitar tantos desses palhaços que esbracejam, a meio de um ciclone que arrasta inocentes: humilhados e ofendidos, um povo empobrecido e esquecido...


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