...o lugar onde a intellighenzia esperneia e luta e quer escapar ao laço dos medíocres que tudo fazem para lhe chuparem o cérebro e lhe matarem os sonhos os ideais a esperança e uma vida digna... uma vida de Homem...Criou-o Afonso Henriques, à espadeirada, no tempo em que as fronteiras se improvisavam e alargavam, com razias.
Sobreviveu a múltiplos achaques, levantou a cabeça, com a revolução da burguesia incipiente, mas que abria os olhos, em 1383-85 e quis ir adiante, à boleia dos príncipes meio ingleses, os filhos de Filipa de Lencastre. Em Alfarrobeira, o Conde Coimbra, D. Pedro enterrou o sonho. É certo, ainda descobrimos, ainda demos sangue, na ânsia de vencer a miséria e a fome. Muitos desses nossos marinheiros foram os avós dos milhões de portugueses espalhados pelo mundo, dos nossos emigrantes dos séculos XIX, XX, XXI...
Com a contra-reforma e o malfadado Concílio de Trento, o poder obtuso criou um cordão sanitário à nossa volta, virou-nos as costas ao progresso, à Europa das Luzes e ficámos a ver navios e a espreitar o rei-símbolo da mediocridade brigantina: João VI, a morder os frangos que guardava nos bolsos... João VI, o primeiro a fugir, João VI, arquétipo do medo, do oportunismo bacoco e da pelintrice mental que tantas e tantas vezes nos têm cortado o voo...
Pedro V, o rei amigo de Herculano e admirador de Camilo, morreu jovem, nunca se soube bem como...
A Primeira República, conquistada há 100 anos -é daqui a dias...- deu em droga e caiu-nos em cima o calvário salazarista: 48 anos!
O 25 de Abril? Mudou muitíssimas coisas, arejou muitíssimo o país, deu a milhões de portugueses o que eles sonharam mas de que já tinham deistido. Mal ou bem deu: acesso ao ensino, assistência médica, reformas, subsídios... Mal ou bem, deu o que Salazar metera no caixão da sua mentalidade pífia –e cruel.
Mas, depois, apanhámos com 10 anos de Cavaco... Vimos passar, sem agarrar, milhões que nos ofereceu a Comunidade Europeia...
E, agora, ei-lo, foi ontem, no seu melhor, Cavaco!
A insinuar, sem fundamentar, a desprezar os políticos em geral e, portanto, a política em geral -ele, que foi buscar à política tudo o que foi e é e que, depois de se pôr a milhas, quando lhe ardeu o rabo, quis voltar, quis-se presidente da República, que é, obviamente, ela, República a encarnação da Política, da Polis...-, Cavaco a tentar desacreditar o governo que aí vem, antes dele, novo governo, se instalar...
A desacreditar-se a ele próprio, é certo..., mas a roer a nossa democracia incipiente. E a fazê-lo precisamente no momento em que Portugal atravessa a mais grave crise social de sempre e acorda a contar o que tem e a ser... o país mais pobre da Europa!
É grave que o tenha feito; mas Cavaco talvez se tenha limitado a ser, plenamente, aquilo que é: um medíocre convencido de que o não é e incapaz de suportar críticas e a dialéctica democrática.
Temos, infelizmente, outro tristíssimo exemplo disso bem perto no tempo: o de um homem que veio de Santa Comba e nos sufocou durante mais de 40 anos...
O panorama político está a modificar-se, também é verdade.
O bipolarismo partidário -ora agora governo eu, ora agora governas tu...- foi ao ar.
O PSD e os seus pseudosociaisdemocratas, a não se emendarem -e será difícil inventar de um dia para o outro uma ideologia que nunca tiveram- tendem a minguar.
Em beneficio do CDS, da direita tradicionalista: Deus, Pátria e Família e uma ida anual a Fátima e mais umas coisitas paternalistas e a puxarem para trás... Essa é uma faceta incontornável da nossa realidade cultural. Evoluirá -ou voltará a ser o CDS o partido democrata-cristão e humanista de Amaro da Costa, Lucas Pires, Freitas do Amaral?... Quem sabe?...
Por sua vez, o PS joga tudo, nos próximos anos (2,4?): provará ou renegará... o seu socialismo.
Entretanto, afirmam-se novas escolhas, outras soluções. E a esquerda reforça-se. É um excelente sinal.
Sim, acredito: a esperança está aí! Mas é preciso lutar muito para transformar o sonho -e é pelo sonho que vamos sempre!- em realidade.
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