segunda-feira, 21 de setembro de 2009

No coração de cada um...

Arkhip Ivanovic Kuinji: Noite Ucraniana...


O que tem a cultura russa de particular? Ser russa, diria o senhor de La Palisse. Certo. Mas por que nos toca tanto e a sentimos tão perto? Gogol, Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov, Maiakovski e aqueles que atravessaram o gelo soviético, Bulgakov, Pasternak... Por que, ao lê-los, nos vêm à ideia Camilo, Raúl Brandão, Branquinho da Fonseca ou a poesia lacerante de Irene Lisboa? Sentimo-los cá dentro, são-nos quase irmãos, vozes secretas, delicadas e trágicas. Está em tudo, na Literatura e nas outras coisas. No livrinho precioso, que já referi, “Regardez la neige qui tombe” (Folio), de Roger Grenier, e cuja leitura aconselho vivamente a quem ama Tchekhov, o grande novelista e dramaturgo surge-nos, em Paris, a reclamar que os impressionistas russos nada devem ao mestres franceses. Confirmei-o, em Moscovo e em S. Petersburgo.




Na Galeria Tetryakova, em Moscovo, encontrei, em tempos, os quadros de Arkhip Ivanovich Kuinji (1842-1910), de Mariupol, junto ao Mar de Azov. A subtileza, a música, a essencialidade, o mundo que interiorizou e expressou em formas e cores imponderáveis, infrangíveis e impositivas, transportavam-me à cultura esquisita e próxima, sabe lá Deus porquê!




Esse homem, que passou fronteiras e visitou França, Alemanha, Suíça, Áustria, retirou-se cedo para a sua terra e por lá se de deixou ficar, construindo, beneditinamente, obra ímpar. As fotografias mostram-no reservado e determinado –a fitar horizontes de cuja singularidade só ele se apercebia. A revelar-nos o nosso coração, o absoluto, roubado, tal qual, à eternidade. Historiadores, especialistas de pintura conhecem, sem dúvida, Kuinji. Eu, porém, gostaria, de assinalar o encantamento e a impressão de haver descoberto um tesouro escondido.


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