domingo, 6 de setembro de 2009

O dia de hoje: será o amor o princípio e o fim de tudo?

pormenor do nascimento de Vénus, pintura de Botticelli



No primeiro livro de Aquilino Ribeiro, Jardim das Tormentas, publicado em 1913 e prefaciado por Carlos Malheiro Dias –monárquico dos quatro costados e romancista de muita qualidade, Malheiro Dias não se coibiu de apresentar um novel autor, republicano e revolucionário...-, o mistério de Adão e Eva, a causa da sua expulsão do Paraíso, é-nos revelado de outra maneira. Não, não foi a maçã, foi o sentimento. O conto intitula-se O Triunfar da Vida.

Proibidos, por Deus, como sabemos, de experimentar o fruto da sabedoria, os dois jovens não se cansam de o procurar. Não lhes basta o que têm: querem mais. Querem ir além.

E eis que, o fruto toma forma inesperada (ou óbvia): no encontro, na entrega, na posse, no abraço, no frémito da busca do êxtase e no clímax dele –se lhes abre a janela do absoluto, do infinito, da eternidade.

Contra a vontade de Deus? Em pleno pecado , em pleno tal pecado original?

Porém, quando Ele os expulsa, conta Aquilino:

‘No mesmo momento todos os animais clamaram:

-Também iremos, oh homem, para o mundo sem fim. Amor, tu és tudo!!

As cancelas do divino horto fecharam-se com horrendo estampido; a terra e o céu ardiam; as ondas do mar ardiam.

Ao frio, ao vento nossos pais tornaram a enlaçar-se como as serpentes; e a criação inteira imitou-os. E ao fim deste amplexo que povoou o mundo, todos cantavam, abelhas, melros e Eva:

-Amor, amor tu és tudo! A ti nos rendemos na dor e na alegria! Amor, tu és tudo!’

Desta fábula, indo ao invés dos gregos, não tirarei nenhuma moralidade. Ou, por outra: a minha, guardá-la-ei para mim. E agora, amigo, é a tua vez de concluires...

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