quinta-feira, 10 de setembro de 2009

o dia de hoje: recordar sempre um Mestre que se obrigou à coerência e pagou por isso e por todos nós...

Antero
Ilha de São Miguel, nos Açores




Quando li, numa carta escrita por Antero de Quental e datada de Janeiro de 1865 (Antero tinha 23 anos), em que se revela decidido a intervir num meio que lhe parece parado:

Vejo nisto mais do que uma salvação para nós, um refúgio contra a vida vulgar. Vejo ainda uma ocasião para muitas e merecidas justiças, para necessárias execuções nas costas destes velhacos e para úteis piparotes no nariz do papalvo génio português;

e cerca de um ano mais tarde:

Creio ser esta para nós uma boa ocasião de sairmos do absurdo sopa-vaca e arroz de vida ordinária;

e, pouco mais depois:

nada disto é vida: para trás! para o lado! subir montes correr vales! ver se se acha, longe de todo o rastro conhecido, coisa que mais nos dulcifique por dentro este azedume insuportável;

pensei que Antero cedo havia eleito a vida terrível cujo preço foi aquele que sabemos: dois tiros na cabeça, em 11 de Setembro de 1891, na sua ilha de São Miguel, em Ponta Delgada.

Vinte anos antes, no dia 27 de Maio de 1871, proferiu a segunda das famosas Conferências do Casino (Casino Lisbonense), Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, à qual vou buscar estas palavras extraordinárias, generosas, inteligentíssimas, preciosamente humanistas, que partem de uma raiz sagrada: o respeito pelo Outro:

As ideias, porém, não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espíritos dos homens. Independente delas, senão acima delas, existe para todas as consciências rectas, sinceras, leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão –o amor e a procura desinteressada da verdade.

Qual a razão do ‘porém’, logo ao começo da longa citação? Nada como reportar o período que a antecede:

Não posso pois apelar para a fraternidade das ideias; conheço que as minhas palavras não devem ser bem aceitas por todos.

E esse “todos” opuseram-se-lhe, resistiram-lhe, empurraram-no para o pessimismo que ia e vinha...

Mas Antero nunca ditou a morte da Esperança –ela acompanhou-o até ao fim. E, se desesperasse realmente, não escreveria o muito que escreveu a seguir... Se desesperasse, não nos consolaria o seu maravilhoso exemplo de homem bom e íntegro –que tantos, tantíssimos de nós continuamos a ler, à procura de força, de coragem, de esperança.

A fraternidade, entre os homens, é possível. Exige luta? Sim, exige a luta do esclarecimento. Exige o ensino da Cultura... Esse ensino que tanto assusta, tanto aterroriza os instalados sobre a miséria dos mais. Esses são mortos-vivos -mortos-vivos que matam, é certo- e o mundo faz-se com vivos-vivos. Faz-se com homens livres, conscientes, decididos.

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