terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um bilhete especil para uma grande Amiga de Celorico da Beira...

...o castelo de Celorico da Beira..., por aqui, vivia minha prima Maria Angélica, que, aos oitenta anos, resolveu ler Simenon, no original...


Minha Querida Maria José,

Lembro-me muito bem de si, de sua irmã e de seus pais... e da “nossa” casa de Celorico da Beira!

Ninguém, nas sagradas beiras, no que diz respeito à casa, ao comer, à terra, aos bens, usa “meu”; nós dizemos “nosso, nossa” –partilhamos, vem-nos no sangue...

E, recordando os anos encantadores de Celorico e a casa de seus Pais, não a surpreende, certamente, que eu diga “a nossa casa”...

Tenho a fotografia no gabinete de trabalho.

Fala-me da pinheira.

A pinheira!

Deu, então, cabo dela o progresso, não admira... O progresso, por toda a parte, não passou de retrocesso; e raras vezes o português soube defender, sequer apreciar, a qualidade de vida. O nosso Interior testemunha-o, abundantemente.

A pinheira e os nossos passeios!

‘Amici per la pelle’, diz-se em italiano... unidos “como unha e carne”, dizemos nós por cá...

E éramos!

Recordo-a a si, recordo a Luísa Barreiros, os olhos tão abertos à vida que neles cabia o mundo inteiro, a Lola dos passinhos rápidos e a ironia constante, o gosto escondido da aventura, o Passarão..., e que Passarão! Iriam, também, as Calheiros e o excelente Manuel Castelo Branco?

Recordo o cheiro especial da nossa terra e o luar tão delicado, doce, reservado, e metediço como se fosse da nossa idade, adolescente...

atrevido, dançarino... diria dançarina essa Lua, mas dançarina do Bolshoi, de Moscovo, com música de Tchaikovski...

Como poderia eu esquecer?!

Gosto de citar o Salinger: “todos os homens estão condenados a crescerem mas alguns [a maioria...] limitam-se a envelhecer...”

Ou o Bernanos, quando reclama: “Sê fiel à tua infância!”

As coisas que eu dizia? Já me não lembro; mas espero não as ter traído –porque é nessa altura que dizemos as coisas verdadeiras.

Celorico da Beira deixou-me uma grande saudade: a casa, as amigas e amigos, o Café do Sr. Serafim... o Dr. Rimbau (que homem singular!)... a minha prima Maria Angélica, que tinha casa junto ao Castelo...

E até me lembro, às vezes, de um cabo da GNR, que era prepotente e nos obrigava a recorrer ao superior dele, na Guarda, para organizarmos os nossos bailes... Que figura ridícula e bem do salazarismo!

Tanto que teríamos para conversar!

Bem haja pelas suas tão boas, generosas palavras!

Olhe, pode pedir ao Américo Rodrigues ou à Margarida Esteves, ou à Sílvia Fernandes, que trabalham com ele, no TMG, o meu e-mail; não lhe deixo aqui porque sei que certos gatos assanhados aproveitariam para me ofenderem... já o fizeram... Até breve! Porque espero reencontrá-la, em breve! Um imenso abraço!

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