...escurecer papéis...Confúcio (551-479 a. C.), mestre de biliões de chineses, ainda hoje seguido, para desespero dos herdeiros de Mao-Tsé-Tung, deixou dito, algures:
‘aquele que sabe reanimar o antigo para compreender o novo merece ser considerado um mestre’.
Manuel Poppe só muito recentemente deparou com essa máxima de Confucius.
Já lera, porém, a seguinte passagem de Storia e Cronistoria del Canzoniere:
‘C’era nel profundo della sua natura, qualcosa che aveva bisogno di appoggiarsi sempre al più solido, al piú sicuro, a quello che aveva fatto le sue prove in un lungo, nel piú lungo possibile, passato, per poi partire alla conquista de se stesso.’
Confissão de Saba que iluminava a simpatia de Poppe por pirâmides e alicerces.
Quando resolveu escrever, ‘escurecer papéis’, expressão de outro seu autor do coração, Georges Bernanos, o novo que ele queria compreender era... ele próprio.
Compreender? Sim. Iniciava a aventura de se ver ao espelho, ir além da máscara e rasgar o pano que o envolvia, esmiuçar as entranhas do títere que era, a meio de outros títeres –e de procurar entender as razões de ali estarem, ele e os outros, e o modo de se chegarem e repudiarem. Ou de se agredirem. Ou de se torturarem e assassinarem. E, as mais absurdas razões e, no entanto, necessárias: as razões para se amarem.
O novo era aquele objecto que ele tinha: ele próprio. E julgou -ou impôs-lhe a vocação- que, se quisesse entendê-lo -entender-se, objecto entre objectos e em relação com eles-, teria de objectivar-se e expor-se, escrevendo-se.
Como se a mesa do escriba fosse a mesa anatómica e lhe coubesse dissecar-se.
Atenção! Há 70 anos, andou, por aí, uma polémica e um poeta -talvez o maior do nosso século XX-, José Régio, foi vítima de infeliz alcunha, que, imbecilmente, medrou: umbiguista. Uma espécie de cognome: José Régio, o umbiguista...
Essa polémica, que opôs Régio e Álvaro Cunhal, assentou, compreende-se, mais do que na estética, em critérios de ideologia política.
Cunhal do lado da arte empenhada, do realismo socialista, do zdanovismo; Régio, do lado daquilo a que António Ramos Rosa chamou ‘poesia, liberdade livre’.
Em 1939, altura da referida polémica, jogava-se o destino do mundo, opunha-se a democracia ao totalitarismo nazi e fascista –e pedia-se (exigia-se) ao artista e ao intelectual que interviessem.
Por cá, surgia o neo-realismo, na linha do realismo socialista zdanovista, em pleno salazarismo e na esperança de o derrubar. O movimento de presença e os presencistas eram atirados para o cesto dos burgueses, obviamente, reaccionários –e Régio era a face mais importante de presença, logo... eminentemente reaccionário, umbiguista, egotisticamente alheio à tremenda luta de classes e ao colossal conflito social que abalava a Europa e iria abalar o mundo. Régio era o homem a desacreditar, a abater.
Honra lhe seja, no decorrer da polémica e depois, apesar de dolorosas (indecentes) sequelas, Régio absteve-se de citar um facto emblemático que denuncia os limites e os excessos de todos os fanatismos: a assinatura, em 23 de Agosto de 1939, do ‘Pacto Molotov-Ribentrop’ ou ‘Tratado de não agressão germano-soviético’.
Para Régio, o que estava em questão era, acima de tudo, a liberdade artística; mas no gesto soviético, estava implícito um certo entendimento da arte e da sua liberdade –porque artistas e intelectuais comunistas deveriam alinhar com as atitudes soviéticas, por mais contraditórias que elas fossem.
Sabemos que situações idênticas e não menos graves aconteceram mais tarde: em 1955, a invasão da Hungria pelas forças do Pacto de Varsóvia; em 1968, a invasão da Checoslováquia pelas mesmas forças. E sabemos que das consequências desses excessos (que esmagavam tentativas democratizantes) e da revolta de artistas e intelectuais.
Mas voltemos ao osso, no caso, ao umbiguismo regiano. Também ele -aliás, à maneira de todos os artistas- quis saber de si e por que tinha nascido e vivia e que destino lhe estava reservado.
Que destino lhe estava reservado, aqui, entre os mais, como ele, Régio, condenados à condição de almas viventes
E, ao descer em si, ia ao encontro do outro.
Ao correr da pena, lembra-me um amigo a quem dei a ler o segundo e definitivo manuscrito d’ O Pássaro de Vidro (porque houve dois manuscritos e uma versão dactilografada), à epoca, jovem comunista militante, que fez o favor de se entusiasmar com o romance mas não deixou de assinalar, talvez surpreendido, talvez desiludido, com certeza crítico:
“-Não há, neste romance, uma única alusão aos problemas sociais...”
Enganava-se: eles estão lá e nem podiam deixar de estar. O encontro e desencontro de Lorenza e Andrea (será necessário explicar que Andrea, em italiano, é nome de homem?) -os heróis do romance- é um problema social. Uma história de amor? E de amor mal vivido?
Ora esse é o mais importante problema social –porque é, na raiz, o problema essencial da relação humana e, dele, tudo decorre.
‘aquele que sabe reanimar o antigo para compreender o novo merece ser considerado um mestre’.
Manuel Poppe só muito recentemente deparou com essa máxima de Confucius.
Já lera, porém, a seguinte passagem de Storia e Cronistoria del Canzoniere:
‘C’era nel profundo della sua natura, qualcosa che aveva bisogno di appoggiarsi sempre al più solido, al piú sicuro, a quello che aveva fatto le sue prove in un lungo, nel piú lungo possibile, passato, per poi partire alla conquista de se stesso.’
Confissão de Saba que iluminava a simpatia de Poppe por pirâmides e alicerces.
Quando resolveu escrever, ‘escurecer papéis’, expressão de outro seu autor do coração, Georges Bernanos, o novo que ele queria compreender era... ele próprio.
Compreender? Sim. Iniciava a aventura de se ver ao espelho, ir além da máscara e rasgar o pano que o envolvia, esmiuçar as entranhas do títere que era, a meio de outros títeres –e de procurar entender as razões de ali estarem, ele e os outros, e o modo de se chegarem e repudiarem. Ou de se agredirem. Ou de se torturarem e assassinarem. E, as mais absurdas razões e, no entanto, necessárias: as razões para se amarem.
O novo era aquele objecto que ele tinha: ele próprio. E julgou -ou impôs-lhe a vocação- que, se quisesse entendê-lo -entender-se, objecto entre objectos e em relação com eles-, teria de objectivar-se e expor-se, escrevendo-se.
Como se a mesa do escriba fosse a mesa anatómica e lhe coubesse dissecar-se.
Atenção! Há 70 anos, andou, por aí, uma polémica e um poeta -talvez o maior do nosso século XX-, José Régio, foi vítima de infeliz alcunha, que, imbecilmente, medrou: umbiguista. Uma espécie de cognome: José Régio, o umbiguista...
Essa polémica, que opôs Régio e Álvaro Cunhal, assentou, compreende-se, mais do que na estética, em critérios de ideologia política.
Cunhal do lado da arte empenhada, do realismo socialista, do zdanovismo; Régio, do lado daquilo a que António Ramos Rosa chamou ‘poesia, liberdade livre’.
Em 1939, altura da referida polémica, jogava-se o destino do mundo, opunha-se a democracia ao totalitarismo nazi e fascista –e pedia-se (exigia-se) ao artista e ao intelectual que interviessem.
Por cá, surgia o neo-realismo, na linha do realismo socialista zdanovista, em pleno salazarismo e na esperança de o derrubar. O movimento de presença e os presencistas eram atirados para o cesto dos burgueses, obviamente, reaccionários –e Régio era a face mais importante de presença, logo... eminentemente reaccionário, umbiguista, egotisticamente alheio à tremenda luta de classes e ao colossal conflito social que abalava a Europa e iria abalar o mundo. Régio era o homem a desacreditar, a abater.
Honra lhe seja, no decorrer da polémica e depois, apesar de dolorosas (indecentes) sequelas, Régio absteve-se de citar um facto emblemático que denuncia os limites e os excessos de todos os fanatismos: a assinatura, em 23 de Agosto de 1939, do ‘Pacto Molotov-Ribentrop’ ou ‘Tratado de não agressão germano-soviético’.
Para Régio, o que estava em questão era, acima de tudo, a liberdade artística; mas no gesto soviético, estava implícito um certo entendimento da arte e da sua liberdade –porque artistas e intelectuais comunistas deveriam alinhar com as atitudes soviéticas, por mais contraditórias que elas fossem.
Sabemos que situações idênticas e não menos graves aconteceram mais tarde: em 1955, a invasão da Hungria pelas forças do Pacto de Varsóvia; em 1968, a invasão da Checoslováquia pelas mesmas forças. E sabemos que das consequências desses excessos (que esmagavam tentativas democratizantes) e da revolta de artistas e intelectuais.
Mas voltemos ao osso, no caso, ao umbiguismo regiano. Também ele -aliás, à maneira de todos os artistas- quis saber de si e por que tinha nascido e vivia e que destino lhe estava reservado.
Que destino lhe estava reservado, aqui, entre os mais, como ele, Régio, condenados à condição de almas viventes
E, ao descer em si, ia ao encontro do outro.
Ao correr da pena, lembra-me um amigo a quem dei a ler o segundo e definitivo manuscrito d’ O Pássaro de Vidro (porque houve dois manuscritos e uma versão dactilografada), à epoca, jovem comunista militante, que fez o favor de se entusiasmar com o romance mas não deixou de assinalar, talvez surpreendido, talvez desiludido, com certeza crítico:
“-Não há, neste romance, uma única alusão aos problemas sociais...”
Enganava-se: eles estão lá e nem podiam deixar de estar. O encontro e desencontro de Lorenza e Andrea (será necessário explicar que Andrea, em italiano, é nome de homem?) -os heróis do romance- é um problema social. Uma história de amor? E de amor mal vivido?
Ora esse é o mais importante problema social –porque é, na raiz, o problema essencial da relação humana e, dele, tudo decorre.
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