...pintura de Aldo Zari...Cara Bicho de mato que andas por aí,
Aproveito o desabafo que puseste no teu blog e começo a escrever sobre O Pássaro de Vidro.
Como se não fosse meu..., se o visse de fora...
É impossível?
Dois grandes poetas –evoco-os, a pedir-lhes protecção, ajuda, absolvição- ensaiaram o mesmo: o nosso José Régio, com Introdução a uma Obra, e Umberto Saba, com Storia e Cronistoria del Canzoniere.
Régio publicou as suas primeiras páginas (julgo) sobre ele próprio, em Prefácio à 2ª edição de Biografia (1939); quatro anos mais tarde -1943-, na 2ª edição de Poemas de Deus e do Diabo (18 anos depois da 1ª, que data de 1925), iniciou a publicação do longo ensaio que terminaria em 1969 e apareceu como Posfácio da 7ª edição da obra (Portugália Editora).
Aproveito o desabafo que puseste no teu blog e começo a escrever sobre O Pássaro de Vidro.
Como se não fosse meu..., se o visse de fora...
É impossível?
Dois grandes poetas –evoco-os, a pedir-lhes protecção, ajuda, absolvição- ensaiaram o mesmo: o nosso José Régio, com Introdução a uma Obra, e Umberto Saba, com Storia e Cronistoria del Canzoniere.
Régio publicou as suas primeiras páginas (julgo) sobre ele próprio, em Prefácio à 2ª edição de Biografia (1939); quatro anos mais tarde -1943-, na 2ª edição de Poemas de Deus e do Diabo (18 anos depois da 1ª, que data de 1925), iniciou a publicação do longo ensaio que terminaria em 1969 e apareceu como Posfácio da 7ª edição da obra (Portugália Editora).
O ensaio de Régio, terminado, em Vila do Conde, Agosto de 1969, portanto a 4 meses da morte, conta 73 páginas;
o ensaio de Umberto Saba, que é um livro, datado Firenze 1944 - Milano 1947, conta 337 páginas e foi editado por Arnoldo Mondadori Editore, 1948 (creio que isso deverá interessar J. Camilo, um dos raros portugueses que admiram o grande triestino/ italiano).
Régio usou a primeira pessoa; Saba, a terceira.
Opto pela escolha de Saba, e conto:
“...No ano de 1974, Dezembro, Manuel Poppe foi nomeado Conselheiro Cultural, junto da nossa Embaixada em Roma, lugar de que tomou posse no dia 9 de Janeiro de 1975.
Chegou àquela cidade no dia 8 desse mês.
Trazia, na cabeça, um romance e, na bagagem, apontamentos e rascunhos, que chegara a ler, em Portugal, a João Gaspar Simões, o qual o incentivara a prosseguir.
No entanto, esse ano de 1975, não foi um ano fausto.
Deslumbrado e conquistado pela Itália, que depressa o apaixonou, Manuel Poppe não escreveu nada.
E, nos anos seguintes, limitou-se a retomar o Diário cujo primeiro volume data de 1960 e a escrever artigos de jornal, quase nenhuns, aliás.
O que não quer dizer que o referido romance não continuasse vivo, dentro dele.
Em 1976, Portugal participou, pela primeira vez, na Bienal de Veneza, com obra de Alberto Carneiro, no Pavilhão Alvar Aalto, graciosamente cedido pela presidência da Bienal.
O ‘guarda’ do pavilhão era o pintor Aldo Zari.
Assim começaria a grande amizade com Zari e a relação muito intensa com Veneza, cidade a que Manuel Poppe voltaria, frequentemente, e onde se demoraria.
Não por acaso, Poppe escreveu, além do romance, a peça Os Amantes Voluntários e a novela A Mulher Nua e alguns contos, ambientados em Veneza.
Manuel Poppe só deixou Itália, e não por livre vontade nem por razões que tenha por justas ou imparciais, na segunda metade de 1989. Um ano depois de publicar O Pássaro de Vidro (esgotado), na Editorial Caminho...
Mas, voltando a 1976, por essa altura conheceu Poppe uma jovem veneziana, Giovanna Valiero, cuja beleza e personalidade muito o impressionaram.
Giovanna e Aldo Zari têm o seu lugar, n’ O Pássaro de Vidro. Giovanna é uma das três jovens mulheres que inspiraram a Manuel Poppe a figura de Lorenza, a heroína do romance; Aldo, por lá passa, com o nome de Aldo Memo.
Régio usou a primeira pessoa; Saba, a terceira.
Opto pela escolha de Saba, e conto:
“...No ano de 1974, Dezembro, Manuel Poppe foi nomeado Conselheiro Cultural, junto da nossa Embaixada em Roma, lugar de que tomou posse no dia 9 de Janeiro de 1975.
Chegou àquela cidade no dia 8 desse mês.
Trazia, na cabeça, um romance e, na bagagem, apontamentos e rascunhos, que chegara a ler, em Portugal, a João Gaspar Simões, o qual o incentivara a prosseguir.
No entanto, esse ano de 1975, não foi um ano fausto.
Deslumbrado e conquistado pela Itália, que depressa o apaixonou, Manuel Poppe não escreveu nada.
E, nos anos seguintes, limitou-se a retomar o Diário cujo primeiro volume data de 1960 e a escrever artigos de jornal, quase nenhuns, aliás.
O que não quer dizer que o referido romance não continuasse vivo, dentro dele.
Em 1976, Portugal participou, pela primeira vez, na Bienal de Veneza, com obra de Alberto Carneiro, no Pavilhão Alvar Aalto, graciosamente cedido pela presidência da Bienal.
O ‘guarda’ do pavilhão era o pintor Aldo Zari.
Assim começaria a grande amizade com Zari e a relação muito intensa com Veneza, cidade a que Manuel Poppe voltaria, frequentemente, e onde se demoraria.
Não por acaso, Poppe escreveu, além do romance, a peça Os Amantes Voluntários e a novela A Mulher Nua e alguns contos, ambientados em Veneza.
Manuel Poppe só deixou Itália, e não por livre vontade nem por razões que tenha por justas ou imparciais, na segunda metade de 1989. Um ano depois de publicar O Pássaro de Vidro (esgotado), na Editorial Caminho...
Mas, voltando a 1976, por essa altura conheceu Poppe uma jovem veneziana, Giovanna Valiero, cuja beleza e personalidade muito o impressionaram.
Giovanna e Aldo Zari têm o seu lugar, n’ O Pássaro de Vidro. Giovanna é uma das três jovens mulheres que inspiraram a Manuel Poppe a figura de Lorenza, a heroína do romance; Aldo, por lá passa, com o nome de Aldo Memo.
As duas outras musas d' O Pássaro de Vidro são uma portuguesa e uma belga, hoje a viverem, respectivamente, em Macau e em Bruxelas. Ambas têm a sua história veneziana, à margem da história inventada (e, se calhar, a mais verdadeira...) de Lorenza.
Aldo Zari teve outro importantíssimo papel: foi o confidente de Manuel Poppe.
Em Veneza e noutros lugares, Manuel e Aldo longamente falaram do romance: da trama e do sentido do romance.
Pelas osterie venezianas; nas ilhas da laguna, em Torcelo, em Burano; em noites de passeios intermináveis; à lareira da nossa casa de Roma, Via Cassia, Orti della Sibilla, Villino 11; na taverna de Roberta, no Campo dè Fiori; na Via dei Portoghesi; na Piazza Navona; no café-bar da Via della Pace; tantas vezes, acompanhados do rafeiro Zac, amigo especial durante 14 anos, que parecia tudo entender e cujos olhos brilhavam, ao ouvir o nome de Lorenza...
Zac conheceu duas das Lorenza.
Por outro lado, Manuel Poppe descobrira, em Itália, dois romancistas que muito lhe ensinaram: o triestino Italo Svevo e o umbro de Siena) Federigo Tozzi. Considera-os Mestres.
E porquê?
Manuel Poppe achou, sempre, que o romance português sofre de uma grave doença: a prosa.
Os novelistas portugueses -honra às excepções, Branquinho da Fonseca, por exemplo- querem ser bons ‘prosadores’ e a linguagem torna-se-lhes barroca, gongórica, quando não cai no experimentalismo peco. Por exemplo: abandono das vírgulas e pontos finais..., confusão de períodos...
Hoje, atentos ao que está a dar, tratam de enfiar nas histórias, a pornografia ou o pitoresco de cordel...
Tudo isso sempre lhe pareceu palha e desnecessário.
Ramón José Sender, a páginas tantas da fabulosa Crónica del alba, cita versos do seu Aragão natal e comenta: ‘Esa es la poesia a la que habría que volver, pero no es fácil, porque los poetas han perdido hace tiempo la inocencia’.
Ora a limpidez, o sentido do essencial, a ingenuidade criadora (Régio, na linha de Sender, chamava-lhe ingenuidade poética), qualidades de Svevo e Tozzi, comunicaram a Poppe o oxigénio e a confiança de que todos precisamos.
Manuel Poppe decidiu escrever antiliteratamente."
Em Veneza e noutros lugares, Manuel e Aldo longamente falaram do romance: da trama e do sentido do romance.
Pelas osterie venezianas; nas ilhas da laguna, em Torcelo, em Burano; em noites de passeios intermináveis; à lareira da nossa casa de Roma, Via Cassia, Orti della Sibilla, Villino 11; na taverna de Roberta, no Campo dè Fiori; na Via dei Portoghesi; na Piazza Navona; no café-bar da Via della Pace; tantas vezes, acompanhados do rafeiro Zac, amigo especial durante 14 anos, que parecia tudo entender e cujos olhos brilhavam, ao ouvir o nome de Lorenza...
Zac conheceu duas das Lorenza.
Por outro lado, Manuel Poppe descobrira, em Itália, dois romancistas que muito lhe ensinaram: o triestino Italo Svevo e o umbro de Siena) Federigo Tozzi. Considera-os Mestres.
E porquê?
Manuel Poppe achou, sempre, que o romance português sofre de uma grave doença: a prosa.
Os novelistas portugueses -honra às excepções, Branquinho da Fonseca, por exemplo- querem ser bons ‘prosadores’ e a linguagem torna-se-lhes barroca, gongórica, quando não cai no experimentalismo peco. Por exemplo: abandono das vírgulas e pontos finais..., confusão de períodos...
Hoje, atentos ao que está a dar, tratam de enfiar nas histórias, a pornografia ou o pitoresco de cordel...
Tudo isso sempre lhe pareceu palha e desnecessário.
Ramón José Sender, a páginas tantas da fabulosa Crónica del alba, cita versos do seu Aragão natal e comenta: ‘Esa es la poesia a la que habría que volver, pero no es fácil, porque los poetas han perdido hace tiempo la inocencia’.
Ora a limpidez, o sentido do essencial, a ingenuidade criadora (Régio, na linha de Sender, chamava-lhe ingenuidade poética), qualidades de Svevo e Tozzi, comunicaram a Poppe o oxigénio e a confiança de que todos precisamos.
Manuel Poppe decidiu escrever antiliteratamente."
(continua)
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