
...pintura de Giovanni Bellini...
Então, o que fez Manuel Poppe, entre 1975 e 1983, ano em que iniciou O Pássaro de Vidro?
Escreveu, a partir de 1978, com regularidade, para o Jornal de Notícias, do Porto. E a página de Cultura do JN foi importantíssima, para ele: dois dos seus livros, Crónicas Italianas (Difel, 1987, esgotado) e Novas Crónicas Italianas (Teorema, 1995), que recebeu o Grande Prémio da APE, juntam artigos/contos ali publicados.
Escreveu, a partir de 1978, com regularidade, para o Jornal de Notícias, do Porto. E a página de Cultura do JN foi importantíssima, para ele: dois dos seus livros, Crónicas Italianas (Difel, 1987, esgotado) e Novas Crónicas Italianas (Teorema, 1995), que recebeu o Grande Prémio da APE, juntam artigos/contos ali publicados.
(com o dinheiro do prémio pagou uma viagem a Amesterdão, onde se demorou uma semana que diz inesquecível)
Em 1984, publicou Temas de Literatura Livre (Imprensa Nacional, esgotado), onde reuniu algumas das muitas críticas e ensaios publicados em revista (Rumo e O Tempo e o Modo, de que foi fundador), no extinto Diário Popular e no Diário de Notícias, de 1960 a 1977.
O jornalismo é uma doença, dizem e bem. Nunca se esquecem nem a tesoura nem a cola... Mas isso era noutros tempos, quando, por exemplo, se paginava sobre o mármore e se reviam os linguados das provas ou se verificavam, neles, os cortes da censura....
Seja como for, ainda hoje o jornalismo computadorizado faz razias nos corações... Poppe considera-se também um jornalista e honra-se disso. Sofre o ‘mal do jornalismo’, como, desde 1996, e depois de 5 anos em São Tomé e Príncipe, passou a sofrer o ‘mal de África’...
Muito cedo começou a publicar em jornais e revistas: de escola (o Gente Moça, do Colégio Moderno), de cidade (o Diário Popular, a que esteve ligado, de 1955 a 1974, O Século, onde publicou um conto –e viu-se aflito para que lho aceitassem, um zdanovista, hoje retirado e enriquecido por via matrimonial, denunciava, na pobre página, a lepra do pequeno burguês...), nas revistas atrás referidas... Exerceu a crítica literária, no ‘DP’, durante quase 10 anos e criou inimigos que ainda mexem e o arranham... Sobre essa aventura, escreveu em Memórias, José Régio e Outros Escritores (ediçõesQuasi, 2001, esgotado).
Já agora, dois apontamentos: o primeiro artigo ‘sério’ (ele assim o baptizou) que publicou no ‘DP’, em Setembro de 1958, foi sobre ‘Doutro Jivago’, de Pasternak, no regresso da sua primeira estadia em Paris; teve honras de primeira página do suplemento (‘Quinta-feira-à-tarde’) e o carinho de um Mestre de jornalistas, alma superior, Jacinto Baptista...;
o segundo: Memórias, José Régio e Outros Escritores provocou a ruptura de relações entre Poppe e certos familiares, do ramo paterno e materno..., e colaterais dos dois ramos...; de facto, Poppe conta, entre outras, histórias de filhos naturais e raptos e abandonos, que muito chocaram parentes instalados na vida...
gente que Salinger descreveu: aqueles que vão crescendo e se limitam a envelhecer, sobretudo por dentro: no espírito...
Que descansem! Não vai repeti-las agora... A não ser que falar de um bisavô marceneiro incomode bisnetos e trinetos, dos tais, dos do Salinger...
Enquanto assim acontecia, o romance de Lorenza e Andrea ocupava os dias e as noites de Manuel Poppe. E o que tinha ele de especial?
Lorenza era uma bela adolescente, que entrava na juventude; Andrea um homem jovem, na força da juventude ainda não madura ou que começa a amadurecer resistindo: defendendo, com unhas e dentes, os sonhos e as ilusões... a juventude dos trinta anos.
O acaso juntara-os e dir-se-ia que tinham gostado um do outro –que tinham sido feitos um para o outro.
A tal explicação de Montaigne, a propósito da sua amizade absoluta com Etienne de La Boétie: ‘il faut tant de rencontres a la bâtir, que c’est beaucoup si la fortune y arrive une fois en trois siècles’…
O milagre aconteceu a Lorenza e Andrea de modo singelo, tal qual consta do primeiro capítulo, que aqui Manuel Poppe vos deixa:...
"Lorenza entrou no cais da Accademia e quando o barco se pôs em movimento ele reparou nela, os cabelos loiros e a gabardina branca. Ela fitou-o de relance e ele viu os olhos azuis, a boca vermelha e as faces salpicadas de chuva. Apagaram-se as luzes e ficaram sozinhos à proa do vaporetto que continuou a subir o Grande Canal, direito a La Salute. Era o mês de Novembro de 1976 e a cidade estava quieta no meio da noite e da bruma. Ele espreitava-lhe o corpo que o reflexo das luzes da cabina iluminava. Ela ia apoiada à amurada, a perceber a atenção dele. E, quando voltou a olhá-lo, Andrea teve medo de a perder, que nunca mais olhasse. Porquê? Atraiam-no os cabelos soltos? As formas, por baixo da gabardina? A boca que lhe parecia imperfeita e fresca como a de uma criança? “Mistério têm todos, mas aquela tinha o de Veneza”, pensava ele, a justificar a curiosidade e o encanto, o desejo e a dependência. E o que a perturbava a ela, que fixava, com tão pouca naturalidade, as margens e as casas? O barco parou em La Salute, em S. Marco, entrou e saiu gente. Ele deixou-se ir atrás dela, com medo de a ver sair, e ela foi ficando, os dois a fingir que não se viam. Fingiam que não se viam, mas não pensavam senão um no outro. Já a meio da laguna, ela sorriu-lhe e ele retribuiu-lhe o sorriso. Trocaram as primeiras palavras e, desde esse momento, a sua relação nunca mais foi simples."
O jornalismo é uma doença, dizem e bem. Nunca se esquecem nem a tesoura nem a cola... Mas isso era noutros tempos, quando, por exemplo, se paginava sobre o mármore e se reviam os linguados das provas ou se verificavam, neles, os cortes da censura....
Seja como for, ainda hoje o jornalismo computadorizado faz razias nos corações... Poppe considera-se também um jornalista e honra-se disso. Sofre o ‘mal do jornalismo’, como, desde 1996, e depois de 5 anos em São Tomé e Príncipe, passou a sofrer o ‘mal de África’...
Muito cedo começou a publicar em jornais e revistas: de escola (o Gente Moça, do Colégio Moderno), de cidade (o Diário Popular, a que esteve ligado, de 1955 a 1974, O Século, onde publicou um conto –e viu-se aflito para que lho aceitassem, um zdanovista, hoje retirado e enriquecido por via matrimonial, denunciava, na pobre página, a lepra do pequeno burguês...), nas revistas atrás referidas... Exerceu a crítica literária, no ‘DP’, durante quase 10 anos e criou inimigos que ainda mexem e o arranham... Sobre essa aventura, escreveu em Memórias, José Régio e Outros Escritores (ediçõesQuasi, 2001, esgotado).
Já agora, dois apontamentos: o primeiro artigo ‘sério’ (ele assim o baptizou) que publicou no ‘DP’, em Setembro de 1958, foi sobre ‘Doutro Jivago’, de Pasternak, no regresso da sua primeira estadia em Paris; teve honras de primeira página do suplemento (‘Quinta-feira-à-tarde’) e o carinho de um Mestre de jornalistas, alma superior, Jacinto Baptista...;
o segundo: Memórias, José Régio e Outros Escritores provocou a ruptura de relações entre Poppe e certos familiares, do ramo paterno e materno..., e colaterais dos dois ramos...; de facto, Poppe conta, entre outras, histórias de filhos naturais e raptos e abandonos, que muito chocaram parentes instalados na vida...
gente que Salinger descreveu: aqueles que vão crescendo e se limitam a envelhecer, sobretudo por dentro: no espírito...
Que descansem! Não vai repeti-las agora... A não ser que falar de um bisavô marceneiro incomode bisnetos e trinetos, dos tais, dos do Salinger...
Enquanto assim acontecia, o romance de Lorenza e Andrea ocupava os dias e as noites de Manuel Poppe. E o que tinha ele de especial?
Lorenza era uma bela adolescente, que entrava na juventude; Andrea um homem jovem, na força da juventude ainda não madura ou que começa a amadurecer resistindo: defendendo, com unhas e dentes, os sonhos e as ilusões... a juventude dos trinta anos.
O acaso juntara-os e dir-se-ia que tinham gostado um do outro –que tinham sido feitos um para o outro.
A tal explicação de Montaigne, a propósito da sua amizade absoluta com Etienne de La Boétie: ‘il faut tant de rencontres a la bâtir, que c’est beaucoup si la fortune y arrive une fois en trois siècles’…
O milagre aconteceu a Lorenza e Andrea de modo singelo, tal qual consta do primeiro capítulo, que aqui Manuel Poppe vos deixa:...
"Lorenza entrou no cais da Accademia e quando o barco se pôs em movimento ele reparou nela, os cabelos loiros e a gabardina branca. Ela fitou-o de relance e ele viu os olhos azuis, a boca vermelha e as faces salpicadas de chuva. Apagaram-se as luzes e ficaram sozinhos à proa do vaporetto que continuou a subir o Grande Canal, direito a La Salute. Era o mês de Novembro de 1976 e a cidade estava quieta no meio da noite e da bruma. Ele espreitava-lhe o corpo que o reflexo das luzes da cabina iluminava. Ela ia apoiada à amurada, a perceber a atenção dele. E, quando voltou a olhá-lo, Andrea teve medo de a perder, que nunca mais olhasse. Porquê? Atraiam-no os cabelos soltos? As formas, por baixo da gabardina? A boca que lhe parecia imperfeita e fresca como a de uma criança? “Mistério têm todos, mas aquela tinha o de Veneza”, pensava ele, a justificar a curiosidade e o encanto, o desejo e a dependência. E o que a perturbava a ela, que fixava, com tão pouca naturalidade, as margens e as casas? O barco parou em La Salute, em S. Marco, entrou e saiu gente. Ele deixou-se ir atrás dela, com medo de a ver sair, e ela foi ficando, os dois a fingir que não se viam. Fingiam que não se viam, mas não pensavam senão um no outro. Já a meio da laguna, ela sorriu-lhe e ele retribuiu-lhe o sorriso. Trocaram as primeiras palavras e, desde esse momento, a sua relação nunca mais foi simples."
(continua)
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