
...por aqui andaram Lorenza e Andrea, por aqui se procuraram e temeram...
"-Vais para casa?
Ela disse-lhe que não, que ia ter com uns amigos ao Campo S. Bartolomeo. Já estava em pé e, quando lhe perguntou se a podia acompanhar, disse-lhe que sim com a cabeça. Quase nem se falaram, andaram a fugir aos encontrões, teve de apressar o passo para a acompanhar. Àquela hora, com o frio e a humidade de Novembro, as pessoas enchiam as ruas, juntavam-se nas osterie, nos bares. Gabriele Trevisan, à porta do Calice, saudou-o, com o copo de cerveja na mão; mais adiante, Alberto Memmo, que vinha do outro lado, sorriu-lhe por detrás dos óculos redondos.
— Conheces tanta gente em Veneza? — perguntou-lhe Lorenza.
— Algumas... Trevisan, Memmo, são amigos ...
— Eu também os conheço.
A relação deles não era clandestina, mas parecia. A pressa de Lorenza, o que sentira (sentira-se descoberto) quando passaram por Gabriele Trevisan e por Alberto Memmo, irem, por ali, sem se falarem, como se tivessem medo. Era um breve encontro, condenado a acabar como as outras coisas, as coisas do momento, agradáveis e precárias? Ou teriam, de facto, medo de estragar tudo se falassem de mais, se exagerassem? Se deixassem o quotidiano invadir o que tinham tido: a alegria discreta que durava há dois dias? Porque, pelo menos por agora, estavam bem um com o outro — mesmo que fingissem desconhecer-se. Gostavam do fim da tarde, da noite que começava, da luz das montras, das pessoas com os abafos e as compras, de se chegarem um ao outro, empurrados pela maré de gente. Sentiam-se acompanhados. E, afinal, o que é que ela sabia dele e ele sabia dela? Ele sabia que ela estudava Biologia em Pádua e, que vivia no Lido que tinha dezanove anos. Ela sabia que ele era médico, que tinha mais quinze anos do que ela, que trabalhava no Hospital de Ss. Giovanni e Paolo, e vivia em Treviso. Gostavam de estar juntos, sem nenhuma segurança, e por isso talvez é que se apressavam — é que ela se apressava: mais valia que fossem cada um para seu lado, contentes por se haverem conhecido.
— Cheguei — disse Lorenza.
Não tinha chegado, S. Bartolomeo, era mais adiante. E, se o mandava embora, era porque queria retomar a vida dela. E que vida era a dela?, pensou. Ia ter com outra pessoa? Não queria que ele soubesse com quem é que ia ter? Ou não queria que as pessoas com quem ia ter a vissem com ele?
— Amanhã telefono-te.
— Se quiseres... — respondeu Lorenza.
Deixava-o prender-lhe a mão e olhava-o nos olhos, com ironia. Parecia senhora de si mesma, do corpo que tinha. Mas ele via nela o interesse por ele.
— Amanhã telefono-te — repetiu.
— Se quiseres...
Desorientava-o. Era trocista e indefesa, decidida e amiga — e, quando era amiga, desorientava-o ainda mais, porque, na sua doçura, vinha ao de cima uma angústia que o assustava. Enervava-o, e era por isso que lhe iria telefonar no dia seguinte. Se qualquer coisa lhe dizia que deveria afastar-se, a maneira como ela se apresentava, deixando que lhe apertasse a mão e lhe olhasse para o corpo, compensava-o do que não tinha, da monotonia e da insipidez dos dias.
Hoje, depois de ir fazer o teste da gripe A e de estar duas horas metido entre vinte pacientes, infecciosos potenciais, e a sermos todos atendidos por uma funcionária, num laboratório de estalo, em Lisboa, e a sermos examinados por uma outra funcionária que só à estalada, todos de mascarazinha e aborrecidos por sermos infectados ou (vamos acreditar...) tristes por infectarmos alguém e... pagarmos o preço do exame 55 euros... não sinto forças senão para deixar aqui o III capítulo d' O Pássaro de Vidro:
"-Vais para casa?
Ela disse-lhe que não, que ia ter com uns amigos ao Campo S. Bartolomeo. Já estava em pé e, quando lhe perguntou se a podia acompanhar, disse-lhe que sim com a cabeça. Quase nem se falaram, andaram a fugir aos encontrões, teve de apressar o passo para a acompanhar. Àquela hora, com o frio e a humidade de Novembro, as pessoas enchiam as ruas, juntavam-se nas osterie, nos bares. Gabriele Trevisan, à porta do Calice, saudou-o, com o copo de cerveja na mão; mais adiante, Alberto Memmo, que vinha do outro lado, sorriu-lhe por detrás dos óculos redondos.
— Conheces tanta gente em Veneza? — perguntou-lhe Lorenza.
— Algumas... Trevisan, Memmo, são amigos ...
— Eu também os conheço.
A relação deles não era clandestina, mas parecia. A pressa de Lorenza, o que sentira (sentira-se descoberto) quando passaram por Gabriele Trevisan e por Alberto Memmo, irem, por ali, sem se falarem, como se tivessem medo. Era um breve encontro, condenado a acabar como as outras coisas, as coisas do momento, agradáveis e precárias? Ou teriam, de facto, medo de estragar tudo se falassem de mais, se exagerassem? Se deixassem o quotidiano invadir o que tinham tido: a alegria discreta que durava há dois dias? Porque, pelo menos por agora, estavam bem um com o outro — mesmo que fingissem desconhecer-se. Gostavam do fim da tarde, da noite que começava, da luz das montras, das pessoas com os abafos e as compras, de se chegarem um ao outro, empurrados pela maré de gente. Sentiam-se acompanhados. E, afinal, o que é que ela sabia dele e ele sabia dela? Ele sabia que ela estudava Biologia em Pádua e, que vivia no Lido que tinha dezanove anos. Ela sabia que ele era médico, que tinha mais quinze anos do que ela, que trabalhava no Hospital de Ss. Giovanni e Paolo, e vivia em Treviso. Gostavam de estar juntos, sem nenhuma segurança, e por isso talvez é que se apressavam — é que ela se apressava: mais valia que fossem cada um para seu lado, contentes por se haverem conhecido.
— Cheguei — disse Lorenza.
Não tinha chegado, S. Bartolomeo, era mais adiante. E, se o mandava embora, era porque queria retomar a vida dela. E que vida era a dela?, pensou. Ia ter com outra pessoa? Não queria que ele soubesse com quem é que ia ter? Ou não queria que as pessoas com quem ia ter a vissem com ele?
— Amanhã telefono-te.
— Se quiseres... — respondeu Lorenza.
Deixava-o prender-lhe a mão e olhava-o nos olhos, com ironia. Parecia senhora de si mesma, do corpo que tinha. Mas ele via nela o interesse por ele.
— Amanhã telefono-te — repetiu.
— Se quiseres...
Desorientava-o. Era trocista e indefesa, decidida e amiga — e, quando era amiga, desorientava-o ainda mais, porque, na sua doçura, vinha ao de cima uma angústia que o assustava. Enervava-o, e era por isso que lhe iria telefonar no dia seguinte. Se qualquer coisa lhe dizia que deveria afastar-se, a maneira como ela se apresentava, deixando que lhe apertasse a mão e lhe olhasse para o corpo, compensava-o do que não tinha, da monotonia e da insipidez dos dias.
(continua... mas não continua necessariamente o romance...)
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