DEVER DE NÃO PIAR
No Paris de França, lá onde ferve a “coisa” cultural, levantou-se um grande alarido: afirmações de Marie Ndiaye, francesa de pai senegalês e mãe francesa, vencedora do Prémio Goncourt (Trois Femmes Puissantes). A laureada, nómada por excelência (viveu em Roma e vive em Berlim), denunciou o governo de Sarkozy, “policial, vulgar”, disse. Caíram-lhe em cima os compinchas do presidente e apressaram-se a apoiá-la os opositores. Natural. Mas, um dos fiéis de Sarkozy foi mais longe: evocou o “dever de reserva”: distinguida com um prémio francês, cabia-lhe ficar calada. Óbvia e mal disfarçadamente, o sarkozista insinuava deverem os intelectuais (todos já arrecadaram um prémiozinho, nem que seja o da freguesia onde nasceram), respeitar esse dever. É uma velha questão, é um velho problema que se pode abordar de lados vários. Essencialmente: compete ao escritor tocar política?
Dispensa-se a resposta à pergunta absurda, porque o escritor não faz outra coisa. Claro que isso incomoda imperadeiros e ditadoritos que, em democracia, se acautelam com censores disfarçados, conselheiros políticos, literatos avençados. Marie Ndiaye não fez mais do que outros. Nos tempos salazaristas, quase ontem, o dever era o de não piar, a independência intelectual, um crime que se pagava caro. E, no entanto, houve quem “piasse”: António Sérgio, Régio, Soeiro Pereira Gomes, Cardoso Pires, Mário Sacramento... Não distingo nem quero distinguir ideias –tiro-lhes o chapéu, porque as tinham. E hoje? Vale a crua frase de Aquilino: “Nunca, como agora, as letras se definem como luminosidade transitória de pirilampos em noite de canícula”?
domingo, 22 de novembro de 2009
O intelectual não deve denunciar a quadrilha que faz do nosso viver um desviver?
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Pois é.
ResponderEliminarOs intelectuais portugueses deixaram de ter qualquer intervenção cívica.
Para não se incomodarem?
Por causa da sua "vidinha"?
Ou, simplesmente, porque já não pensam ?