domingo, 15 de novembro de 2009

Ensaio sobre 'O Pássaro de Vidro' -VII

... Café Florian, na Piazza San Marco, Venezia...



Eu sei que aquilo que aqui digo não interessa a muita gente. Mas a mim também não me interessam os que não se interessam. E continuo...; a pensar em ti, amigo desconhecido, que te interessas.
Por que razão resolveu Manuel Poppe escrever um romance inteiramente italiano... inteiramente veneziano ou veneto? João Gaspar Simões, um dos seus Mestres avisou-o do risco que corria. Um português a falar de italianos... Um romance ‘pitoresco’ -exótico não se poderia dizer- como tantos outros de tantos outros?... Não teve medo de cair nessa facilidade: Veneza estava-lhe já na alma.

Poppe aceitou o desafio –e porque se entregara, desde o primeiro dia, à Itália e a interiorizara. De 1975 a 1977, não voltou a Portugal, excepto breves deslocações em serviço. Não virou as costas ao seu país: abriu-se a um novo país. E o próprio trabalho que fazia -divulgar a Cultura portuguesa- facilitou-lhe a integração: correu Itália de Norte a Sul e conviveu com as pessoas do quotidiano. Exerceu, pois, funções diplomáticas especiais (aliás, pertenceu aos ‘serviços especializados’ do MNE...). E, no que diz respeito a Veneza, Ado Zari proporcionou-lhe encontros e situações que aproveitou em ‘O Pássaro de Vidro’; levou-o à ‘Vedova’, ao ‘Do Mori’, ao ‘Paradiso Perduto’; apresentou-lhe artistas e estudantes da Accademia, boémios e gondoleiros. Algumas dessas figuras aparecem no romance; Giovanna Valiero, porém, veio sozinha e Poppe conheceu-a nas circunstâncias descritas no 1º capítulo, que transcreveu atrás. E, dado que o livro se esgotou, há muito, e não exista nenhuma promessa de o reeditarem; dado que, hoje, Poppe está doente (passou a noite com febre alta e dores no corpo, não sabe se é a famigerada gripe mexicana e tinha de acontecer ao fim de semana, quando não se encontra 1 médico e, das urgências dos hospitais, Poppe foge como Mamomé do presunto), mas não quis deixar de escrever a tal linha obrigatória...; dado tudo isso, resolveu confiar aos amigos que lêem este blog o 2º capítulo d’ O Pássaro de Vidro –ele aí vai:





“...Aquele sorriso seria sempre o dela, pelo menos para ele: divertido e intenso, mas cauto, de quem defende o que oferece. Haveria de o inquietar -ou de o enervar- aquele sorriso. Pensava: «Que significa? O que viu?» Nesse momento, quando ela lhe disse o nome e o número do telefone, a dançar com o barco, a equilibrar-se nas pernas abertas, agora muito séria mas disponível, ficou sem saber o que significava o seu modo de olhar. No Lido, não se atreveu a convidá-la a tomar um café, teve medo de a assustar. Branca, graças à gabardina branca e à cara molhada, debaixo da luz difusa dos candeeiros e no meio da noite, era uma imagem que não queria perder, que já estimava. Ela estendeu-lhe a mão e pareceu-lhe hesitante, à espera, mas ele largou-a e Lorenza foi-se embora e ele voltou a Veneza. Preferiu assim. Desconfiava de si próprio e do seu jeito para ser feliz. Mas, no dia seguinte, telefonou-lhe e combinaram encontrar-se num café de S. Marco:
-“Só uns minutos...
Chegou primeiro e teve medo que ela não viesse. Ficou à espera, até que apareceu, a acenar-lhe.
— Gostas deste café? — perguntou-lhe.
— Gosto...
Convidara-a para ali porque lhe dava a segurança que lhe faltava. Um sítio onde muitos iam e, assim, aconchegava-se nas certezas dos outros. Um sítio onde se levava as namoradas ou mulheres que se queria deslumbrar.
—Quando era pequena, os meus pais traziam-me ao Florian... — disse ela.
«Quando era pequena?», pensou Andrea. «Quer dizer que eu sou velho? ... Sim, de facto... Dez anos? Quinze?” E, se calhar, por isso é que tinha medo que ela não viesse... E nada a obrigava a vir. “Conhecemo-nos por acaso num vaporetto... Como veio, vai... E é capaz de ser melhor ... »
À sua frente, ela segurava a chávena do café, com os dedos magros, e observava-o, sem o sorriso da outra vez, mas, sem tirar os olhos, media-o de alto a baixo. Para ele, era o tudo ou o nada: pegar ou largar. E, se ela largasse, voltava para onde estava: para si mesmo, e lá iria andando. Preferia que não se fosse embora, queria alguma coisa daquela mulher.
— Já viste as voltas que o mundo dá? Há uma semana, nem nos conhecíamos e agora estamos aqui os dois... Eu até julguei que tu não vinhas!...
— Mas vim! — respondeu Lorenza, a saber que ele lhe dizia aquilo porque precisava dela.
— Ainda bem que vieste!
— Obrigada. Eu também gosto de estar ao pé de si... –respondeu Lorenza e cruzou as pernas compridas compôs o cabelo, inclinada para ele — Vive em Veneza?
— Estou em Veneza de passagem. Sou de Treviso. Venho cá, às vezes, por causa do meu trabalho.
— Qual é o seu trabalho?
— O meu trabalho... Por que é que me tratas por você?... O meu trabalho é no Hospital de Ss. Giovanni e Paolo, sou médico. Antes não fosse! Não servimos para nada! Os médicos são pessoas que se limitam a adiar a morte...
Não o dissera para a impressionar, nem queria impressioná-la com a sua profissão: desabafara, porque precisava de desabafar e, já agora, que ela lhe servisse para isso, para o ouvir. Não teve tempo de ter remorsos do seu egoísmo porque ela não olhava para ele e parecia abismada em si própria. «O que é que aconteceu? Já te espantei? Isto é mais um disparate!». Mas o corpo de Lorenza, os braços apoiados na mesa, eram o que tinha e não queria deixá-los fugir.
— Está bem, vou tratar-te por tu... Não digas mal do teu trabalho, é importante...
Andrea enganara-se, ouvira-o e compreendera-o, também ela não gostava da vida que tinha e estava à espera de qualquer coisa que partisse o vidro que não a deixava tocar a realidade. Sentia-se longe, às voltas. Entre ela e os outros, parecia haver um vidro, não conseguia tocar-lhes ou, se lhes tocava, saía-lhe tudo ao contrário, deixava-os e eles não percebiam o que ela tinha feito e riam-se dela. “Vive numa redoma?”, pensou Andrea, “Mas não é feliz...”
— É apaixonante ser médico...
Andrea pensou que não o entendera e que, se lhe contasse, ela se desinteressaria. Os seus problemas, tão banais!...
— Esta cidade! — exclamou.
-É um pequeno mundo... –murmurou Lorenza.
-E acrescentou:
— Não esperes milagres. Nem esperes muito de mim.
Cortara, secamente, porque também ela tinha medo do que acontecia: do que ele precisava dela e do interesse que começava a sentir por ele. E Andrea respondeu:
— Espero tudo.
«Espera tudo?», pensou Lorenza. «Não tem juízo... ». E, lisonjeada, disse:
— Não esperes. Não me conheces. Eu não consigo dar nada às outras pessoas.
— Isso não é verdade! Se fosse verdade, não estávamos aqui!
— E tu achas que vale a pena estarmos aqui? — perguntou Lorenza, a sorrir e a agradecer-lhe.
— Acho.
Parecia-lhe que recuperava a confiança em si próprio, graças à janela que abrira na indiferença aparente. Lorenza empurrara-o, fechara-se e, agora, perguntava qualquer coisa, admitia-o à sua intimidade ou, involuntariamente, confiava-se-lhe.
— Tu consegues chegar até às outras pessoas! Se acreditares, se arriscares.
Queria, ajudá-la ou queria agarrá-la, aproveitar-se da fraqueza —mínima que fosse— adivinhada? Era de boa-fé que recuperava a confiança ou a julgava recuperar? Recuperava-a à custa da fragilidade dela ou no amor a ela? Na ternura, ao vê-Ia indefesa e necessitada dele, ou na alegria de a reconhecer tão fraca como ele? O mais provável é que tudo isso lhe andasse na cabeça. Certo era que não a queria perder e disse-lhe:
— Eu compreendo-te...
Mas Lorenza não pareceu convencida:
— O que é que compreendes? — E, antes que respondesse, acrescentou: — Não me apetece falar, não me apetece falar de mim...
Andrea não, compreendia senão aquilo: que ela era como os outros, que precisava de se confiar e que gostava dela.
— Eu compreendo... — disse-lhe.
Lorenza riu-se, arrependida:
— Está bem. Deixa lá isso.
Falaram de outras coisas, mas, sempre, do mesmo: da vida deles. Caiu a tarde, e a basílica foi entrando no escuro. As luzes acenderam-se. As pessoas encheram os cafés. Lorenza agitou-se:
— Andrea! Já é tarde! Vamos embora?
Não a contrariou. Erros desses haveria de cometer muitos."
(continua)

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