segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ensaio sobre 'O Pássaro de Vidro'- IX

...imagem de Treviso...



Ontem fui ao encerramento do London Jazz Festival e assisti a um muito belo concerto de Marcus Miller.

O romantismo de certas passagens (decididamente, não sou o último romântico de que falava Nathan Zach...), a paixão, a sinceridade, a beleza trouxeram-me de volta O Pássaro de Vidro, Lorenza, Andrea. E decidi quebrar a jura de silêncio e aqui deixo mais um capítulo, o V...



"Ficara-lhe e pesava-lhe o que não lhes dissera. Era remorso e insatisfação. Procurara sempre, nelas, nas suas amigas ocasionais, uma pessoa que o ouvisse e por quem pudesse fazer alguma coisa. Enquanto lhes mexia, estava à espera. A de Bolonha dissera-lhe:
— Anda cá!
Ele queria mais: queria que lhe dissessem:
— Vem para ao pé de mim!
Se lhe dissessem isso, era porque se interessavam por ele, porque precisavam dele. Estava demasiado ferido para receber ordens. Queria que o abraçassem e ele se sentisse bem — tão bem que não precisasse de mais nada e se convencesse de que a outra pessoa repousava ao lado dele. Por isso, falava-lhes enquanto iam fazendo o que faziam. Falava de si, à espera de que elas falassem delas. Dizia-lhes que era médico e que não sabia nada. Que as coisas passavam. Que, se calhar, no dia seguinte, ela — a daquele momento — já não se lembraria dele. Provocava-as, gritava, sem levantar a voz, por elas. E a daquele momento perguntava-lhe:
— Porquê? Querias que eu me lembrasse de ti?
Andrea não tinha a certeza. Era uma coisa passageira. Deixava-lhe pouco: o cuspo, o suor, os pêlos do púbis na barriga dele. Quando gemia, deixava-lhe o gemido dela, o arfar.
— Meu amor! — acrescentava, a livrar-se dele e a ir lavar-se.
Iam lavar-se e, depois delas, ia ele. Surpreendia-o, a tranquilidade com que faziam aquilo: metiam a mão no bidé e atiravam a água para cima; sorriam-lhe se estava ao pé delas.
— O que é que estás a olhar? — perguntavam-lhe, enquanto se enxugavam e iam à vida, com um sorriso que era como quem diz: “Vê lá se não gostas!”
Ele não tinha aquela segurança — não tinha, sequer, a força de as tocar sem remorso. Por mais que elas lhe dessem — porque alguma coisa lhe davam —, pensava que andara, por ali, à procura de Lorenza, que a procurara noutras pessoas e que as desrespeitara. Era isso o que o afligia: com que direito é que usava as pessoas para se esquecer de Luísa e de Lorenza? Mas consolavam-no, sempre lhe davam qualquer coisa, não eram objectos. E vencia o remorso, justificando-se com a dor que lhe criava o vazio, provocado por Lorenza e que as outras enchiam, pelo menos com o corpo. Talvez não o ouvissem, mas aqueciam-no. Devia ser um defeito dele, não se entendera com nenhuma. Luísa fora-se embora, Lorenza não lhe escrevia, as outras entravam e saíam. Ficava, ali, à espera de que Lorenza lhe telefonasse e ela nunca telefonaria, não sabia o número. Saturado da facilidade das coisas, da facilidade com que podia enganar a solidão, chegava a pensar que mais valia perdoar-lhe: perdoar-lhe o que ela teria ido fazer à Grécia, e entregar-se-lhe. A pouca-vergonha dela era a dele: também ele andara com aquelas pessoas. Amava-a — chegava a pensar que isso era a coisa mais importante da sua vida — e perdoava-lhe que se tivesse divertido sem ele, Estava cansado, não queria continuar a vingar-se dela. Apetecia-lhe trazê-la para ao pé de si e fingir que não sabia de nada, Realmente, de que é que poderia vingar-se? De gostar dela? De procurar as outras e de lhes mentir? De se violentar a si próprio, obrigando-se àquelas coisas? Vingar-se de continuar a falar dela, mesmo quando queria falar das outras? Vingar-se de não a esquecer?
Foi um período difícil para Andrea: o Verão passou depressa e voltou a Treviso, ao dia-a-dia, sem que nada se resolvesse. As, coisas, apesar de o terem agitado, o que acontecera, parecia de somenos e deixara tudo na mesma. Reencontrava a casa de onde vivia desde o casamento com Luísa, onde já vivera com seus pais. O pai oferecera-lha, quando deixara o escritório de advogado e se retirara para Verona e isso acontecera na altura do casamento de Andrea. O que significava, para ele, aquele mundo? Desfizera as malas, dera uma vista de olhos ao correio e estava ali sentado, a preparar-se para recomeçar. A que é que voltava e o que é que valia aquilo a que voltava? Aos doentes? A Roberto, o filho, que via nos fins-de-semana? Andrea era um médico, consciente e estimava os doentes, gostava muito do seu filho. Era, pensava, enquanto acendia um cigarro, uma pessoa tranquila. Nunca fizera nada que, os outros não tivessem feito. Estudara, formara-se, casara, tivera um filho. O seu divórcio não escandalizara ninguém, eram coisas que aconteciam. Luísa fora um grande amor: companheira de liceu em Treviso, apaixonara-se por ela, habituara-se a gostar dela, acabara por casar com ela. O casamento durara seis anos. Fora ela quem saíra de casa e, agora, vivia com outro, em Bréscia. Lorenza, naquele momento, provavelmente já voltara a Veneza. Roberto passara as férias com os avós: com os pais de Luísa, que tinham uma vivenda, ao pé de Rimini. Em Setembro, Roberto iria dez dias para casa dos pais dele, em Verona. E ele recomeçaria o trabalho em Veneza. Era assim a vida. Num canto da sala, arrumado em cima de uma cadeira, estava um brinquedo de Roberto, um pássaro de corda. Era recente o brinquedo, e ele deixara-o ficar. Sorriu. Dantes, aquela casa tinha outra animação. O que acontecera? O que, acontecera sabia ele bem: divorciara-se e aceitara que Luísa ficasse, com o filho. Como na costa de Cesena metia, às vezes, pessoas em casa; mas eram pessoas que vinham e iam e era, sempre, ele que fechava a porta e ia apagar as luzes. Como fora tudo aquilo? Viam-se, às vezes, ele, Luísa, Roberto, ou, só ele e Roberto. E a casa continuava a ser a sua casa de Treviso. Às, vezes, encontravam-se ali, outras, num café ou num restaurante. Roberto chegava e abraçava-o e ele pegava-lhe ao colo. Quando vinha Luísa, era mais difícil, porque não, sabia o que é que havia de dizer-lhe. Roberto sentava-se-lhe no colo e ele, que não queria afligir nenhum dos dois, deixava Luísa onde ela estava: à sua frente e a olhar para outro sítio, com o corpo que ainda não tinha envelhecido. Nunca percebera por que é que ela se fora embora. Dissera-lhe pouca coisa: que se sentia asfixiar, que queria estar sozinha. E, nos primeiros tempos, Roberto ficou entregue aos pais de Andrea provisoriamente e sem que eles soubessem o que se passava. Luísa reclamou a tutela do filho. Pediu e obteve o filho. Andrea concordou. Nada lhe era indiferente mas, pouco a pouco, aceitara vê-lo só aos fins-de-semana, dar-lhe o dinheiro que ela queria. Já não gostava de Luísa e queria vê-la pelas costas? Hoje, quando pensava nisso, ainda tinha dificuldade em compreender. Num primeiro momento, sentira-se ofendido, revoltado, quisera magoá-la, tirar-lhe o filho e discutir o dinheiro. Depois — porque era assim ou porque estava farto de lutar com ela e das suas razões —, aceitou e ficou aliviado. E, nesse dia, dormiu bem, tratou de si com carinho: parecia que era outra vez ele, sem responsabilidades. Abriu a janela da casa de banho e respirou o ar dos pinheiros, que lhe chegou como antes, ouviu os pássaros e gostou de ver a cara no espelho.
Eram coisas de outro tempo, pensava. A alegria que tivera -fora mesmo alegria? Perdeu-a depressa: ficou-lhe a dúvida, que não podia esquecer no corpo das outras e que Lorenza não anulara. Por que é que se tinham separado, ele e Luísa? O amor que os juntara gastara-se depressa. Luísa, uma vez, na esplanada de um café, enquanto Roberto brincava com as pombas, murmurara:
— Tu nunca me soubeste amar...
E ele não respondera, porque não tinha a certeza. Haviam-nos afastado os conflitos que tinham resolvido ignorando-os ou com violência? Afastara-os o muito tempo que se tinham amado? O excesso que tinham posto no amor e que era insustentável? Desde crianças que tinham o hábito de se procurarem e de se quererem um ao outro, cúmplices de uma coisa importante, que tinham mexido um no outro, à espera de um milagre. E o milagre fora aquele, separarem-se. Eram o que eram. O que procuravam não chegou a salvá-los.


(continua)

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