...as coisas que ficam quando os amantes se separam...As raparigas de Liverpool entraram n’ O Pássaro de Vidro: fazem parte da Comedia dell’Arte. E as canções singelas, a transparência da voz, o sonho que perpassa, sempre tão frágil, levam-nas à Comédia do Amor, que é uma comédia inesperadamente (?) dura...
Ter voltado a ouvi-las, eis a razão de publicar o VI capítulo:
"Tentarem ainda evitá-lo. Não lhes serviu de nada Entregaram-se um ao outro, procurando adivinhar o que queriam. Viajaram. Trocaram coisas. Falaram do filho e do futuro dele, falaram do tempo em que tinham gostado um do outro. E nada impediu o desenlace. Já estavam condenados. Pensava-o, agora. Naquela altura não, responsabilizava-se. Não soubera gostar dela? Quisera que ela fosse apenas a mulher dele, a mãe do filho que tinham tido? Não soubera acompanhá-la e perdera, por isso, a sua confiança e dera cabo dela? Pensara isso e mais coisas. Hoje não o afligiam porque sabia que ela tinha outro mundo. Vivia sozinho. De Luísa, tinha raras notícias. Mas, na casa de Treviso, à espera de telefonar a Lorenza, era natural que pensasse em Luísa. Podia querer Lorenza, sem saber por que perdera Luísa? Ou sem saber se perdera, realmente, alguma coisa? Fora tudo simples, mas deveria haver uma razão. O que acontecera? Quem tivera a culpa? Hoje achava que tinham estado os dois de boa-fé, procurado e, como não achassem, desistido. Procurado, um no outro, o que procurava nas de Cesena, uma grande alegria, a mesma que ela procurava, e procurara, provavelmente, noutras pessoas (e, nesse momento, já se esquecera de que as de Cesena eram, para ele, um divertimento inconsequente que, por isso, o angustiava). Nunca discutiram a separação: nem antes, nem depois. Luísa queixava-se, às vezes, de que lhe faltava o ar. Teria razão. A ele também faltava o ar. Ela dizia que lhe apetecia estar sozinha e também a ele lhe sabia bem estar no consultório ou no hospital de Veneza. Era ele quem fugia? E as vezes em que ela o deixara sozinho, em que se furtara a dar-se-lhe, porque estava cansada, ou em que se mexera, debaixo do seu corpo, como se estivesse com ele e a mentir-lhe? Quando é que tinham começado a mexer-se, sem estarem um com o outro? E — pensava — sem estarem com ninguém, outra vez sozinhos, como antes de se terem conhecido e querido? As pessoas, as imagens que os rodeavam não tinham importância suficiente para preencherem o vazio que se abria no meio deles: eram meras reminiscências. Tinham desistido um do outro? Ou era aquela, ainda, uma forma de se provocarem? Vinha, ao de cima, no quotidiano, a impaciência e a distância. E sabiam-no os dois. Por que é que insistiam naquela agressão? Esperavam que, daí, resultasse alguma coisa? Que o outro se arrependesse e voltasse a ser quem já não era? Uma vez ela disse-lhe:
— É inútil, acabou.
Iam de carro, a caminho de Roma, calados, a evitarem falar. Roberto ficara com os pais dele e tinham aproveitado a Páscoa para viajarem. Andrea perguntou-lhe:
— Estás farta? Achas que não vale a pena?
— Não, não é isso — respondeu Luísa —, acho é que é tempo perdido...
E ele admirou a sua frieza. Tinha razão, a viagem a Roma não levaria a nada. E qual fora o tempo que não se perdera? Quando se tinham conhecido, parecera-lhes que era tempo ganho. Afinal, não. E era agora que deviam lamentar-se? Ela dizia-lhe que era tempo perdido e ele não lhe respondia, para não a incomodar e para não se incomodar. Talvez ela tivesse razão, talvez fosse um disparate irem juntos. Agora, ao lembrar-se desse momento, pensava que insistira em ir com ela porque só lhes restava aquilo: a ternura um pelo outro, um certo respeito que ficara e ele queria salvar.
— Dantes, foi diferente... — dissera-lhe, de outra vez. — Tu gostavas de estar ao pé de mim e eu gostava de estar ao pé de ti...
— Foi há tantos anos... — respondeu ela, com um sorriso triste.
Andrea não insistiu: respeitava a honestidade daquela mulher, com os cabelos castanhos, o rosto composto, a saia por cima dos joelhos. Nunca deixara de ser a menina dos tempos do liceu: determinada e séria. Mesmo que ele quisesse, não poderia vê-Ia de outra maneira. E tinha vontade de a apertar de encontro a si, mas sabia que já não era a vontade de antes. O corpo dela era lindo: as pernas afuseladas, o peito cheio, a boca que ele gostara tanto de beijar! E ia-se embora.
Não podia evitar que fosse, nem queria. Ao mesmo tempo da pena de a perder, sentia curiosidade: como é que seria depois? Para ele e para ela. Já estava tão distante — ou queria estar — que desejava que tivesse uma nova vida. Era a amizade e o egoísmo: preferiria que ela fosse feliz, a sentir-se culpado. E, mesmo agora, ao lembrar Lorenza, parecia-lhe que traía Luísa. Nunca quisera atraiçoá-la. E, de facto, nunca se tinham traído: teria sido inútil. E isso é que mais os prendera: o amor deles, acabara por morrer, naturalmente. Ao esgotarem — pensavam eles que esgotavam — o seu amor, arderam sozinhos, porque, mesmo que se encostassem, era o respeito por eles próprios que os impedia de pedirem ajudas. E quando ela foi viver para Bréscia, com um amigo que era professor de liceu e poeta, com dificuldades económicas, Andrea pensou que nunca compreendera a sua sensibilidade. Pensou que havia, no fundo dele, insegurança: não falhara nada: nem os estudos, nem a profissão, agarrara-se às coisas certas. Mas pensou, também, que ela nunca o ajudara a falhar. Tinham procurado qualquer coisa mais do que o dia a dia, e tinham dado um ao outro aquilo."
— É inútil, acabou.
Iam de carro, a caminho de Roma, calados, a evitarem falar. Roberto ficara com os pais dele e tinham aproveitado a Páscoa para viajarem. Andrea perguntou-lhe:
— Estás farta? Achas que não vale a pena?
— Não, não é isso — respondeu Luísa —, acho é que é tempo perdido...
E ele admirou a sua frieza. Tinha razão, a viagem a Roma não levaria a nada. E qual fora o tempo que não se perdera? Quando se tinham conhecido, parecera-lhes que era tempo ganho. Afinal, não. E era agora que deviam lamentar-se? Ela dizia-lhe que era tempo perdido e ele não lhe respondia, para não a incomodar e para não se incomodar. Talvez ela tivesse razão, talvez fosse um disparate irem juntos. Agora, ao lembrar-se desse momento, pensava que insistira em ir com ela porque só lhes restava aquilo: a ternura um pelo outro, um certo respeito que ficara e ele queria salvar.
— Dantes, foi diferente... — dissera-lhe, de outra vez. — Tu gostavas de estar ao pé de mim e eu gostava de estar ao pé de ti...
— Foi há tantos anos... — respondeu ela, com um sorriso triste.
Andrea não insistiu: respeitava a honestidade daquela mulher, com os cabelos castanhos, o rosto composto, a saia por cima dos joelhos. Nunca deixara de ser a menina dos tempos do liceu: determinada e séria. Mesmo que ele quisesse, não poderia vê-Ia de outra maneira. E tinha vontade de a apertar de encontro a si, mas sabia que já não era a vontade de antes. O corpo dela era lindo: as pernas afuseladas, o peito cheio, a boca que ele gostara tanto de beijar! E ia-se embora.
Não podia evitar que fosse, nem queria. Ao mesmo tempo da pena de a perder, sentia curiosidade: como é que seria depois? Para ele e para ela. Já estava tão distante — ou queria estar — que desejava que tivesse uma nova vida. Era a amizade e o egoísmo: preferiria que ela fosse feliz, a sentir-se culpado. E, mesmo agora, ao lembrar Lorenza, parecia-lhe que traía Luísa. Nunca quisera atraiçoá-la. E, de facto, nunca se tinham traído: teria sido inútil. E isso é que mais os prendera: o amor deles, acabara por morrer, naturalmente. Ao esgotarem — pensavam eles que esgotavam — o seu amor, arderam sozinhos, porque, mesmo que se encostassem, era o respeito por eles próprios que os impedia de pedirem ajudas. E quando ela foi viver para Bréscia, com um amigo que era professor de liceu e poeta, com dificuldades económicas, Andrea pensou que nunca compreendera a sua sensibilidade. Pensou que havia, no fundo dele, insegurança: não falhara nada: nem os estudos, nem a profissão, agarrara-se às coisas certas. Mas pensou, também, que ela nunca o ajudara a falhar. Tinham procurado qualquer coisa mais do que o dia a dia, e tinham dado um ao outro aquilo."
(continua)
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