...pôr de Sol no litoral de Cesena...Encontrou Manuel Poppe, em Storia e Cronistoria del Cazioniere, de Saba, os versos:
e se nell’ombra de la voce amata
di mia madre appresssarsi e poi morire,
spesso col pianto vo addolcendo il duolo.
e o comentário:
'Questo era già molto semplice, e vicino il piú possibile alla lingua parlata.'
Eis o que Poppe ambicionava: limpar a sua prosa do literário, simplificá-la, chegá-la ao essencial –e o essencial está na ‘língua falada’; sem medo de repetir mais um lugar-comum, Poppe diria: o essencial está na linguagem do povo.
Nesses tempos de busca, luta e trabalho organizado, persistente, diário, no tal estúdio da casa do Orti della Sibilla, com o Zac aos pés e a Marietta, de Corot, ao fundo da sala ampla, veio passar um mês à casa romana um homem superior cuja preocupação era escrever um livro (e nunca o chegaria a escrever, por razões que se ligam à estupidez e à maldade humanas e ao fanatismo zdanovista): Feliciano Falcão –e que lhe perguntou:
-Como se escreve um livro?
Ao que respondeu:
-Não tendo medo de escrever mal.
Queria Poppe dizer: pondo de parte as preocupações literatas de estilo, de boa prosa –e deixando as palavras saírem como vêm... como quem fala...
E aqui fica o Capítulo IV d’ O Pássaro de Vidro, que é mais um exemplo desse combate:
“Dias depois, Andrea voltou para Treviso. Nos meses seguintes quase se não viram — ou porque Lorenza não podia, ou porque Andrea estava ocupado. Era ela, porém, quem se esquivava: amigos, dores de cabeça, a universidade... As raras vezes que se encontraram foi a correr, nos cafés, no meio de outras pessoas e por condescendência, aceitava vê-lo ou ele perdoava que lhe fugisse e procurava-a.
Passou muito tempo. O ano deu a volta. Lorenza a estudar Biologia em Pádua, Andrea entre Treviso e Veneza. O calor tomou conta da cidade. Andrea deixou Veneza — chegara o Verão — e, um dia, escreveu-lhe uma carta a que ela não respondeu. Através de amigos comuns, que encontrou em Treviso, soube que Lorenza partira para a Grécia. Ele foi passar o mês de Agosto à costa de Cesena — como ia, já há alguns anos: desde que se divorciara e procurara outra vida. Nunca mais voltara à casa dos seus pais, à casa de Verona. Tinha tentado estar sozinho, livre dos outros. Sozinho não estava: procurara encher os dias sem se preocupar com quem o rodeava. Era melhor assim: governava-se com o que vinha à rede. A rede era dele — e era melhor ter o que a rede lhe dava do que o que os outros lhe impunham, ou não ter nada. Luísa, a mulher, os pais, o único filho, tinham-lhe pesado muito: eram obrigações. Percebera que Luísa se afastava dele e que os pais o queriam consolar. Ele não queria ser consolado. Deixava atrás Lorenza e ia pôr-se ao sol, no Adriático.
Ia aquecer-se ao sol, com a recordação dela. E a recordação era tão forte que não havia mal que lhe chegasse. Não a esquecia, mesmo quando a enganava, quando agarrava as outras e as convencia a estarem ao pé dele, se aproveitava delas. O que fora ela fazer à Grécia? E com quem? Com o amigo que a esperava em S. Bartolomeo e por isso é que ela o despedira? Com muitas pessoas, além daquele amigo, outros amigos? Não podia saber nada. Ela só lhe dava incertezas, não lhe dava nenhuma segurança. Gostava dela: não tinha outro remédio, gostava dela e tinha saudades. E buscava toda aquela gente, para ver se a esquecia. Ela acabava por voltar. Via-a à sua frente. Encontrava-a no corpo das outras. A seguir à separação, perseguia-o Luísa; agora, era a vez de Lorenza. E chegava a pensar: «Qual das duas é mais importante?» Não seriam iguais?, dois becos sem saída, que o deixavam sozinho, como ficara sempre? Luísa passava horas sem falar com ele, fugia-lhe, refugiava-se em certos cantos da casa: no quarto dela, ou no quintal a mexer nas flores. Lorenza esquecera-se de responder à carta que lhe escrevera. Luísa metia-se no quarto, ou ia para o quintal porque — pensava-o hoje — estava farta do casamento, de viver fechada naquela casa, à espera que ele voltasse. E Lorenza, que não vivia com ele, que era livre, por que é que não lhe respondera? Por que é que, tantas vezes, se recusara a vê-lo, em Veneza? Não tinha nenhum motivo para estar cansada. Não o entendera bem? Não percebera que ele tinha coisas para lhe dar? Não o amava? Provavelmente não o amava. Ou não o merecia. Divertira-se à custa dele, e, agora, fora-se embora. Era natural, pensava. E, nesses momentos, abandonava-se ao trivial: a experiências, com as companheiras ocasionais, que acabavam no apartamento alugado,. Uma vez, uma chamou-o:
-Anda cá! O que é que estás para aí a fazer? Julgas que eu não te ouvi? Anda falar comigo!
Ele deixara-a deitada, no meio dos lençóis, e tinha ido preparar umas bebidas. Ela falava-lhe, lá de dentro, mas não acreditava que o tivesse ouvido. Deixara-o mexer-lhe e a mais não era obrigada, escusava de lhe mentir.
— Anda cá! — insistia ela.
E se fosse verdade? Ou queria recomeçar? Não lhe bastava o que tinham feito? Talvez fosse verdade o corpo dela aberto em cima da cama. E ele vinha, sentava-se-lhe aos pés, a olhá-la e a pensar que a sua boca iria outra vez beijar-lhe o corpo todo, outra vez à procura dela. Mas ela não era só o corpo, as coxas, os seios, os lábios; era, também, os olhos que olhavam para ele, e tinha uma expressão de ternura e desejo, que lhe pertencia, que só ela lhe poderia dar. Outra dar-lhe-ia de outra maneira. E, com que direito é que a sua mão subia pelo corpo dela, se o não fazia de boa-fé?
— És tão doce! — disse ela e acariciou-lhe os, cabelos.
Ele não sabia, mas para ela fora suficiente: tratara-a bem e ela respirara, agarrada a ele. Ele não era a única pessoa solitária e a mão dele aconchegava-a.
Além dessa, levara outras amigas ao apartamento. À estudantinha de Bolonha, seguiram-se outras. Comportar-se de outra maneira é que seria estranho. Jantavam juntos e iam para a cama. Muitas vezes nem eram precisas as discotecas, bastava um passeio, à beira-mar. Já se tinham contratado, já se tinham entendido. Misturavam-se os corpos e o suor. Agarravam-se os membros. Abriam-se as bocas e enrolavam-se as línguas. Encostavam-se as faces. E, no último momento, por pudor e com medo de que aquilo não levasse a nada, murmuravam o nome do outro e abraçavam-se.”
(continuará..., moderadamente)
e se nell’ombra de la voce amata
di mia madre appresssarsi e poi morire,
spesso col pianto vo addolcendo il duolo.
e o comentário:
'Questo era già molto semplice, e vicino il piú possibile alla lingua parlata.'
Eis o que Poppe ambicionava: limpar a sua prosa do literário, simplificá-la, chegá-la ao essencial –e o essencial está na ‘língua falada’; sem medo de repetir mais um lugar-comum, Poppe diria: o essencial está na linguagem do povo.
Nesses tempos de busca, luta e trabalho organizado, persistente, diário, no tal estúdio da casa do Orti della Sibilla, com o Zac aos pés e a Marietta, de Corot, ao fundo da sala ampla, veio passar um mês à casa romana um homem superior cuja preocupação era escrever um livro (e nunca o chegaria a escrever, por razões que se ligam à estupidez e à maldade humanas e ao fanatismo zdanovista): Feliciano Falcão –e que lhe perguntou:
-Como se escreve um livro?
Ao que respondeu:
-Não tendo medo de escrever mal.
Queria Poppe dizer: pondo de parte as preocupações literatas de estilo, de boa prosa –e deixando as palavras saírem como vêm... como quem fala...
E aqui fica o Capítulo IV d’ O Pássaro de Vidro, que é mais um exemplo desse combate:
“Dias depois, Andrea voltou para Treviso. Nos meses seguintes quase se não viram — ou porque Lorenza não podia, ou porque Andrea estava ocupado. Era ela, porém, quem se esquivava: amigos, dores de cabeça, a universidade... As raras vezes que se encontraram foi a correr, nos cafés, no meio de outras pessoas e por condescendência, aceitava vê-lo ou ele perdoava que lhe fugisse e procurava-a.
Passou muito tempo. O ano deu a volta. Lorenza a estudar Biologia em Pádua, Andrea entre Treviso e Veneza. O calor tomou conta da cidade. Andrea deixou Veneza — chegara o Verão — e, um dia, escreveu-lhe uma carta a que ela não respondeu. Através de amigos comuns, que encontrou em Treviso, soube que Lorenza partira para a Grécia. Ele foi passar o mês de Agosto à costa de Cesena — como ia, já há alguns anos: desde que se divorciara e procurara outra vida. Nunca mais voltara à casa dos seus pais, à casa de Verona. Tinha tentado estar sozinho, livre dos outros. Sozinho não estava: procurara encher os dias sem se preocupar com quem o rodeava. Era melhor assim: governava-se com o que vinha à rede. A rede era dele — e era melhor ter o que a rede lhe dava do que o que os outros lhe impunham, ou não ter nada. Luísa, a mulher, os pais, o único filho, tinham-lhe pesado muito: eram obrigações. Percebera que Luísa se afastava dele e que os pais o queriam consolar. Ele não queria ser consolado. Deixava atrás Lorenza e ia pôr-se ao sol, no Adriático.
Ia aquecer-se ao sol, com a recordação dela. E a recordação era tão forte que não havia mal que lhe chegasse. Não a esquecia, mesmo quando a enganava, quando agarrava as outras e as convencia a estarem ao pé dele, se aproveitava delas. O que fora ela fazer à Grécia? E com quem? Com o amigo que a esperava em S. Bartolomeo e por isso é que ela o despedira? Com muitas pessoas, além daquele amigo, outros amigos? Não podia saber nada. Ela só lhe dava incertezas, não lhe dava nenhuma segurança. Gostava dela: não tinha outro remédio, gostava dela e tinha saudades. E buscava toda aquela gente, para ver se a esquecia. Ela acabava por voltar. Via-a à sua frente. Encontrava-a no corpo das outras. A seguir à separação, perseguia-o Luísa; agora, era a vez de Lorenza. E chegava a pensar: «Qual das duas é mais importante?» Não seriam iguais?, dois becos sem saída, que o deixavam sozinho, como ficara sempre? Luísa passava horas sem falar com ele, fugia-lhe, refugiava-se em certos cantos da casa: no quarto dela, ou no quintal a mexer nas flores. Lorenza esquecera-se de responder à carta que lhe escrevera. Luísa metia-se no quarto, ou ia para o quintal porque — pensava-o hoje — estava farta do casamento, de viver fechada naquela casa, à espera que ele voltasse. E Lorenza, que não vivia com ele, que era livre, por que é que não lhe respondera? Por que é que, tantas vezes, se recusara a vê-lo, em Veneza? Não tinha nenhum motivo para estar cansada. Não o entendera bem? Não percebera que ele tinha coisas para lhe dar? Não o amava? Provavelmente não o amava. Ou não o merecia. Divertira-se à custa dele, e, agora, fora-se embora. Era natural, pensava. E, nesses momentos, abandonava-se ao trivial: a experiências, com as companheiras ocasionais, que acabavam no apartamento alugado,. Uma vez, uma chamou-o:
-Anda cá! O que é que estás para aí a fazer? Julgas que eu não te ouvi? Anda falar comigo!
Ele deixara-a deitada, no meio dos lençóis, e tinha ido preparar umas bebidas. Ela falava-lhe, lá de dentro, mas não acreditava que o tivesse ouvido. Deixara-o mexer-lhe e a mais não era obrigada, escusava de lhe mentir.
— Anda cá! — insistia ela.
E se fosse verdade? Ou queria recomeçar? Não lhe bastava o que tinham feito? Talvez fosse verdade o corpo dela aberto em cima da cama. E ele vinha, sentava-se-lhe aos pés, a olhá-la e a pensar que a sua boca iria outra vez beijar-lhe o corpo todo, outra vez à procura dela. Mas ela não era só o corpo, as coxas, os seios, os lábios; era, também, os olhos que olhavam para ele, e tinha uma expressão de ternura e desejo, que lhe pertencia, que só ela lhe poderia dar. Outra dar-lhe-ia de outra maneira. E, com que direito é que a sua mão subia pelo corpo dela, se o não fazia de boa-fé?
— És tão doce! — disse ela e acariciou-lhe os, cabelos.
Ele não sabia, mas para ela fora suficiente: tratara-a bem e ela respirara, agarrada a ele. Ele não era a única pessoa solitária e a mão dele aconchegava-a.
Além dessa, levara outras amigas ao apartamento. À estudantinha de Bolonha, seguiram-se outras. Comportar-se de outra maneira é que seria estranho. Jantavam juntos e iam para a cama. Muitas vezes nem eram precisas as discotecas, bastava um passeio, à beira-mar. Já se tinham contratado, já se tinham entendido. Misturavam-se os corpos e o suor. Agarravam-se os membros. Abriam-se as bocas e enrolavam-se as línguas. Encostavam-se as faces. E, no último momento, por pudor e com medo de que aquilo não levasse a nada, murmuravam o nome do outro e abraçavam-se.”
(continuará..., moderadamente)
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