
“O combate que se propunha Manuel Poppe era o seguinte: limpar as palavras inúteis. Essas pareciam-lhe uma barreira, entre o autor e o leitor.
Sempre pensou ele que o leitor se entrega -e recebe- quando sente a presença de alguém -o narrador- por trás das páginas.
Gustave Flaubert tentou, em Madame Bovary, a objectividade absoluta: o apagamento, o desaparecimento do autor –e aconteceu que não tivesse outro remédio senão reconhecer que isso era impossível: ‘Madame Bovary c’est moi’, confessou.
Ora, para que a obra seja o autor -represente a sua mundividência, as coisas da vida como viu, sentiu e experimentou- e o leitor receba a sua mensagem, necessária é a tal limpeza: o arranque do supérfluo.
Não ignora Poppe que o autor pode ir, vai sempre além do que consciencializou; mas isso é outro assunto. O transe criador, a inspiração, o subconsciente e o inconsciente -pois, recorre a eles o artista- quem duvida deles? No entanto, artista é o que nunca perde o sentido crítico -mesmo que se esqueça do sentido crítico- e elimina o desnecessário e se atem ao essencial.
Proust escreveu um imenso romance, A la recherche du temps perdu sem que se possa dizer que haja páginas mortas, páginas perdidas. Proust desceu, sistemática e obstinadamente, na natureza humana.
O mesmo, e de outra maneira, aconteceu em Guerra e Paz, de Tolstoi.
O mesmo acontece, agora em poucas páginas (e nem por isso é mais fácil): na extraordinária novela de Dostoievski, Está Morta! (cito o título da única tradução portuguesa que conheço).
O mesmo acontece na, breve também, novela de Branquinho da Fonseca, O Barão.
Ao decidir escrever antiliteratamente, Poppe pretendeu libertar-se do mal que ataca o narrador português que se delicia com as palavras, pretende escrever bem e anda à roda de um pretenso assunto que nunca chega a afirmar.
Há grandes escritores portugueses que nunca resistiram à pecha, apesar de terem deixado páginas superiores. Camilo, Eça abandonaram-se ao estilo, entendido como pincelada bonita, mas fácil.
Não por acaso Van Gogh, a dado momento da sua vida, experimentou pintar com a mão esquerda; a direita já sabia demais e arrastava-o para a comodidade, descansava-o, interrompia a sua busca –divertia-o: distraía-o de si e do drama que queria objectivar.
Hoje, entre nós, Agustina Bessa-Luís é exemplo disso mesmo: o barroco (o gozo da prosa?) dominou-a e os seus romances tornaram-se, por vezes, incompreensíveis e repetitivos. O que não a impediu de escrever páginas insuperáveis, episódios de antologia –a antologia que, um dia, se fará da obra de Agustina –sem dúvida, o maior dos ficcionistas portugueses vivos.
Manuel Poppe não poderia dizer -ou não gostaria de dizer-, de Agustina, ‘o maior dos prosadores portugueses vivos’, porque Poppe entende que o grande ficcionista é muito mais do que simples bom prosador.
Poppe escreveu, até, que os bons prosadores servem para redigirem bons necrológicos ou discursos ocasionais.
Nunca se tomou Manuel Poppe por um inovador, e por uma razão muito simples: desde criança (e, em criança, se interessou pela literatura), viu, nas pirâmides, o exemplo a seguir. Ou cedo se apercebeu da importância dos alicerces.
Poppe quer-se e quis-se um continuador.
Ele tinha-se como mais uma pedra -ínfima pedra- acrescentada às já existentes e que deveria aproveitar o ensinamento dessas.
Fácil, perceber o respeito de Poppe pelas pirâmides e alicerces, que sustentam as casas.
Considera Poppe a Literatura e a Arte uma imensa casa?
Sim. Mais explicitamente: considera que elas são uma Torre –a Torre de Babélia, palco onde entram e saem e se cruzam pessoas diferentes cujo único elemento comum é a busca do sentido das coisas através da expressão artística.
Porque -pensa Poppe-, mesmo que o não saiba, o artista, quando trabalha, procura o sentido das coisas.
Exibe-se? Sim, exibe-se, na obra (mesmo quando a obra lhe foge e ganha vida independente; a velha questão, que, noutro e mesmo plano, opôs Proust a Sainte-Beuve) e, ao exibir-se, busca-se a si próprio, quer ver-se, e provoca os mais, quer saber o que os mais pensam dele.
Desde criança, a beleza dos objectos impressionou-o e interessou-o.
Objectos úteis, do dia a dia: pratos, colheres, garfos, cadeiras...
Já na praia da Ericeira -a primeira praia que se lembra de ter frequentado e aí por 1946, 1947, soube-o depois e aventuradamente: mortas as testemunhas dessas férias, pais, irmãos, a ama Beatriz, natural de Poiares, Coimbra, não conseguia atinar com a data; a única referência era... a Volta a Portugal em Bicicleta e o nome do ciclista José Martins, ídolo de sua irmã, Mitzú, benfiquista ferrenha e universitária empenhada na luta antisalazarista (o Benfica, além de vermelho -Salazar impunha aos jornais e rádios que escrevessem e dissessem encarnado- era o clube do povo)..., perante isso, investigou na internet e verificou que José Martins venceu as voltas de 1946 e 1947... em 1946 e 1947, passara, pois, as férias do Verão, na Ericeira-,
Sempre pensou ele que o leitor se entrega -e recebe- quando sente a presença de alguém -o narrador- por trás das páginas.
Gustave Flaubert tentou, em Madame Bovary, a objectividade absoluta: o apagamento, o desaparecimento do autor –e aconteceu que não tivesse outro remédio senão reconhecer que isso era impossível: ‘Madame Bovary c’est moi’, confessou.
Ora, para que a obra seja o autor -represente a sua mundividência, as coisas da vida como viu, sentiu e experimentou- e o leitor receba a sua mensagem, necessária é a tal limpeza: o arranque do supérfluo.
Não ignora Poppe que o autor pode ir, vai sempre além do que consciencializou; mas isso é outro assunto. O transe criador, a inspiração, o subconsciente e o inconsciente -pois, recorre a eles o artista- quem duvida deles? No entanto, artista é o que nunca perde o sentido crítico -mesmo que se esqueça do sentido crítico- e elimina o desnecessário e se atem ao essencial.
Proust escreveu um imenso romance, A la recherche du temps perdu sem que se possa dizer que haja páginas mortas, páginas perdidas. Proust desceu, sistemática e obstinadamente, na natureza humana.
O mesmo, e de outra maneira, aconteceu em Guerra e Paz, de Tolstoi.
O mesmo acontece, agora em poucas páginas (e nem por isso é mais fácil): na extraordinária novela de Dostoievski, Está Morta! (cito o título da única tradução portuguesa que conheço).
O mesmo acontece na, breve também, novela de Branquinho da Fonseca, O Barão.
Ao decidir escrever antiliteratamente, Poppe pretendeu libertar-se do mal que ataca o narrador português que se delicia com as palavras, pretende escrever bem e anda à roda de um pretenso assunto que nunca chega a afirmar.
Há grandes escritores portugueses que nunca resistiram à pecha, apesar de terem deixado páginas superiores. Camilo, Eça abandonaram-se ao estilo, entendido como pincelada bonita, mas fácil.
Não por acaso Van Gogh, a dado momento da sua vida, experimentou pintar com a mão esquerda; a direita já sabia demais e arrastava-o para a comodidade, descansava-o, interrompia a sua busca –divertia-o: distraía-o de si e do drama que queria objectivar.
Hoje, entre nós, Agustina Bessa-Luís é exemplo disso mesmo: o barroco (o gozo da prosa?) dominou-a e os seus romances tornaram-se, por vezes, incompreensíveis e repetitivos. O que não a impediu de escrever páginas insuperáveis, episódios de antologia –a antologia que, um dia, se fará da obra de Agustina –sem dúvida, o maior dos ficcionistas portugueses vivos.
Manuel Poppe não poderia dizer -ou não gostaria de dizer-, de Agustina, ‘o maior dos prosadores portugueses vivos’, porque Poppe entende que o grande ficcionista é muito mais do que simples bom prosador.
Poppe escreveu, até, que os bons prosadores servem para redigirem bons necrológicos ou discursos ocasionais.
Nunca se tomou Manuel Poppe por um inovador, e por uma razão muito simples: desde criança (e, em criança, se interessou pela literatura), viu, nas pirâmides, o exemplo a seguir. Ou cedo se apercebeu da importância dos alicerces.
Poppe quer-se e quis-se um continuador.
Ele tinha-se como mais uma pedra -ínfima pedra- acrescentada às já existentes e que deveria aproveitar o ensinamento dessas.
Fácil, perceber o respeito de Poppe pelas pirâmides e alicerces, que sustentam as casas.
Considera Poppe a Literatura e a Arte uma imensa casa?
Sim. Mais explicitamente: considera que elas são uma Torre –a Torre de Babélia, palco onde entram e saem e se cruzam pessoas diferentes cujo único elemento comum é a busca do sentido das coisas através da expressão artística.
Porque -pensa Poppe-, mesmo que o não saiba, o artista, quando trabalha, procura o sentido das coisas.
Exibe-se? Sim, exibe-se, na obra (mesmo quando a obra lhe foge e ganha vida independente; a velha questão, que, noutro e mesmo plano, opôs Proust a Sainte-Beuve) e, ao exibir-se, busca-se a si próprio, quer ver-se, e provoca os mais, quer saber o que os mais pensam dele.
Desde criança, a beleza dos objectos impressionou-o e interessou-o.
Objectos úteis, do dia a dia: pratos, colheres, garfos, cadeiras...
Já na praia da Ericeira -a primeira praia que se lembra de ter frequentado e aí por 1946, 1947, soube-o depois e aventuradamente: mortas as testemunhas dessas férias, pais, irmãos, a ama Beatriz, natural de Poiares, Coimbra, não conseguia atinar com a data; a única referência era... a Volta a Portugal em Bicicleta e o nome do ciclista José Martins, ídolo de sua irmã, Mitzú, benfiquista ferrenha e universitária empenhada na luta antisalazarista (o Benfica, além de vermelho -Salazar impunha aos jornais e rádios que escrevessem e dissessem encarnado- era o clube do povo)..., perante isso, investigou na internet e verificou que José Martins venceu as voltas de 1946 e 1947... em 1946 e 1947, passara, pois, as férias do Verão, na Ericeira-,
já na Ericeira, reparou na elegância, na beleza dos barcos, das âncoras...
Trabalhos de artesãos, personalizados, obras de arte.
E, ainda agora, se interroga sobre a relação beleza/ utilidade... Como se alguma necessidade impusesse a beleza para que os objectos fossem úteis... Essa necessidade existe? É uma... realidade? Ou a beleza desses objectos não passa de um devaneio, de garridice, de reflexo individualista?
Onde nos levaria discuti-lo!
Mas, acerca desse ‘reflexo individualista’, dessa marca que se quis deixar, dessa presença que se quis marcar, escreveu Poppe um breve conto precisamente intitulado A Expressão Artística e publicado em Crónicas Italianas (Difel, 1984, esgotado).
Cada um acrescenta a sua pedra –e não deve perder de vista, a fim de que ela, a pedra, não resvale e se desaproveite, as pedras que outros lá puseram, antes.
Por isso, Manuel Poppe leu e continua a ler os ‘clássicos’: desde os gregos, sim, desde os gregos (e refere, entusiasmado, a novelinha Dafné e Cloé, de um anónimo a quem chamam de Longus, que remonta ao Séc. II (?) e é um exemplo genial da sinceridade poética e do sentido do essencial), dos trágicos, das nossas cantigas de amor e de amigo e, abreviando, dos mestres russos e ingleses, de Camilo e por aí até hoje –ou até ontem, se são muito apressados e julgam que 30 ou 50 anos pesam alguma coisa...
Porque Manuel Poppe receia que a literatura tenha estagnado, e, de 1960/70, para cá, a maioria esmagadora das obras seja irrelevante.
Manuel Poppe nunca se preocupou com o estar updated; em Arte, o que é actual não tem nada que ver com a cronologia.
Aliás, não pensa que haja progresso, em Arte –ainda que pense que a invenção da impressão e dos computadores foram muito importantes. Tal qual a descoberta da máquina fotográfica e da máquina de filmar...
(continua)
Trabalhos de artesãos, personalizados, obras de arte.
E, ainda agora, se interroga sobre a relação beleza/ utilidade... Como se alguma necessidade impusesse a beleza para que os objectos fossem úteis... Essa necessidade existe? É uma... realidade? Ou a beleza desses objectos não passa de um devaneio, de garridice, de reflexo individualista?
Onde nos levaria discuti-lo!
Mas, acerca desse ‘reflexo individualista’, dessa marca que se quis deixar, dessa presença que se quis marcar, escreveu Poppe um breve conto precisamente intitulado A Expressão Artística e publicado em Crónicas Italianas (Difel, 1984, esgotado).
Cada um acrescenta a sua pedra –e não deve perder de vista, a fim de que ela, a pedra, não resvale e se desaproveite, as pedras que outros lá puseram, antes.
Por isso, Manuel Poppe leu e continua a ler os ‘clássicos’: desde os gregos, sim, desde os gregos (e refere, entusiasmado, a novelinha Dafné e Cloé, de um anónimo a quem chamam de Longus, que remonta ao Séc. II (?) e é um exemplo genial da sinceridade poética e do sentido do essencial), dos trágicos, das nossas cantigas de amor e de amigo e, abreviando, dos mestres russos e ingleses, de Camilo e por aí até hoje –ou até ontem, se são muito apressados e julgam que 30 ou 50 anos pesam alguma coisa...
Porque Manuel Poppe receia que a literatura tenha estagnado, e, de 1960/70, para cá, a maioria esmagadora das obras seja irrelevante.
Manuel Poppe nunca se preocupou com o estar updated; em Arte, o que é actual não tem nada que ver com a cronologia.
Aliás, não pensa que haja progresso, em Arte –ainda que pense que a invenção da impressão e dos computadores foram muito importantes. Tal qual a descoberta da máquina fotográfica e da máquina de filmar...
(continua)
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