sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ensaio sobre 'O Pássaro de Vidro' -VI

...Marietta, pintura de Corot... que eu via, em Roma, ao fundo do meu estúdio, toda uma parede...





A história d’ O Pássaro de Vidro é a história dessa relação. Nem mais, nem menos. Ao longo de 337 páginas, começadas em Janeiro de 1983, em Roma, o autor debruça-se, apenas, sobre o caso de Lorenza e Andrea, que muito o intrigou.

Por que razão duas pessoas se amam e fogem uma da outra?

Obviamente, Poppe não quer revelar a teia do romance: essa a irá entendendo quem o leia; mas vê-se obrigado a confessar que O Pássaro de Vidro relata o encontro e o desencontro -absurdo, achou o autor- de um homem e de uma mulher. De uma jovem mulher e de um homem jovem.

Absurdo? Ou frequente? É fácil amar? É fácil entregarmo-nos?

A relação sexual, instintiva, muitas vezes é simples, quase espontânea; mas a da alma? Sim: a entrega do espírito, do nosso imo, âmago, a cedência da alma, a outrém... como acontece?

Ela representa a abdicação de nós próprios, significa confiarmo-nos a alguém... e isso não é fácil nem simples –e, quando o instinto no-lo aconselha, uma força oculta em nós (inconsciente?) trava-nos. Muitas vezes (demasiadas vezes?) nos trava.

Lorenza e Andrea não são figuras dinossáuricas, nem do passado, nem ultrapassadas. Aquilo que sabemos da sua história vai de 1976 a 1981. Aconteceu ontem. Os 28 anos que nos separam dela levam o tempo que leva um piscar de olho.

Manuel Poppe não acredita que o leitor seja tão ingénuo que julgue vinte, trinta (e já concede calcular por baixo...), quarenta anos, uma eternidade... E se tal pensasse o leitor, perguntar-lhe-ia Poppe como explica o seu (dele, leitor) interesse pelos romances de Dostoievski, a poesia de Cesário Verde e Mário de Sá-Carneiro ou... as peças de teatro de Samuel Beckett –todos muito mais velhos e antigos que Lorenza e Andrea?

Manuel Poppe acredita na intemporalidade do espírito do homem (e, quando diz espírito, abrange a sensibilidade e afectividade) e, mais, acredita que, em Arte, não existe progresso –existem modos sucessivos e renovados de ver e sentir a realidade: mundividências que se substituem mas não se interanulam.

E isso porque os olhos de cada um pertencem, indivisivelmente, a cada um e a virgindade deles é indiscutível. Quer Poppe dizer: cada homem vê a realidade à sua maneira singular e única e, sempre, pela primeira vez.

Poderia acrescentar, se interpelasse, directamente o leitor destas linhas: ‘Olha: ninguém leu, antes de ti, estas linhas do modo que tu estás a lê-las nem ninguém falará delas como tu falarás, se quiseres falar...’

E, quando, no tal Inverno de Janeiro de 1983, Poppe se sentou à mesa de trabalho e resolveu escrever e compreender a aventura dos jovens amantes de Veneza, não violava a intimidade de personagens do paleolítico: entrava no mundo de pessoas deste nosso tempo. Acha mesmo o autor que entrou na vida de figuras muito deste nosso tempo de hoje, 12 de Novembro de 2009.

(o autor exigiu que se escrevesse 12 e não 13, porque é supersticioso, renega o número 13, gatos pretos e recusa passar por baixo de escadas...)

Essa viagem durou até Julho de 1986, na tal casa do Orti della Sibilla, em Roma. Três anos e meio, portanto, aos quais há a acrescentar os anos de preparação, as longas conversas com Aldo Zari, a releitura de páginas de diários e cartas –porque O Pássaro de Vidro é, subjectivamente, autobiográfico, sem que, objectivamente, o seja.

E confessa Poppe que utilizou, para o romance páginas alheias: cartas e apontamentos que não lhe pertenciam, não de outros escritores, porém... Textos de pessoas reais, que lhe inspiraram a história.

O romancista é um ladrão e toda a gente o sabe; abrir a porta de casa a um romancista é abrir a porta a um corsário e ai dos que não fecham a sete chaves os tesouros da sua intimidade!

Todos os dias, Poppe escurecia papéis. No estúdio da casa de Roma, horas a fio, quatro, cinco horas, aos pés o fiel Zac, ao fundo, a reprodução -que ocupava uma parede- do quadro de Corot, Marietta; nos cafés; nos hóteis; nos aviões... Os seus artigos para o JN passaram a esporádicos... as leituras rarearam... Os dias eram vividos, inteiramente, com Lorenza e Andrea e, quando não, tudo acabava por a eles se referir.

Amou -e ama- muito esse livro, essas personagens... Os heróis e aqueles a que chamou ‘comparsas’: Alberto Memmo, Bernardo Dillon, Caterina Monastier, Michele Borin...

Os lugares: a Laguna, Burano..., os cafés, Florian, Paolin..., as osterie, La Vedova, Il Paradiso Perduto... Nenhum deles inventado, nem sequer Il Paradiso, apesar do seu nome tão espectacular...

Agora mesmo o coração lhe dói, ao recordá-los.

Manuel Poppe carece de imaginação ou dispensa-a; é à sua experiência vivida que vai buscar personagens, situações, lugares (no caso, à sua paixão por Veneza, onde passou muitos meses, somados, anos...).

A sua paixão por Veneza!

Manuel Poppe não desconhecia que grandes escritores escreveram sobre a cidade, escritores de agora, se não nos obceca a tal actualidade, afinal pseudo-actualidade, nomes como os de Thomas Mann (Morte em Veneza) e Hemingway (Across the River and into the Trees), mas pensou: ‘cada um dá o que tem e esta história é verdadeira, é carne da minha carne, pobre que seja é o que tenho para dar e devo dar’.

Retirado no estúdio, lançou-se na viagem mais difícil, mais dolorosa e apaixonante que jamais viveu.

Como acima se referiu, acompanhava-o o inseparável Zac e também a música: obsessivamente, ouviu, horas seguidas, Benedetto Marcello e... The Durutti Column… E, a escrever e a ouvi-los, chorou -é absolutamente verdadeiro- as desaventuras de Lorenzo e Andrea.

Porque acontecia levarem-no as personagens e, muitas vezes, para onde não deveriam ir...

Iniciado o capítulo, iniciada a cena, eram elas, personagens, que marcavam o ritmo. De facto, o autor poderia escolher várias saídas mas uma impunha-se-lhe e havia que segui-la. E sucedia que murmurasse: ‘Por que diabo fazem eles estas asneiras?!’ Lamentava, mas eles faziam-nas...

Sempre assim é, quando Poppe começa uma nova história: só ao sentir que já se apaixonou por uma das personagens e que ela o agarrou (e não terá sido ele a agarrá-la...), tem a certeza de entrar no mundo que quer descrever e analisar e a certeza de que se acendeu uma luz verde, a dizer-lhe: continua.

Assim foi com a Shiri, em Sombras em Telavive, assim foi com a Muna, em Um Inverno em Marraquexe; assim foi com o Pedro I, da peça Pedro I... ou com a Greta d’ A Mulher Nua...


(continua)

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