terça-feira, 6 de outubro de 2009

Trieste cidade mágica dos grandes escritores

...Trieste, Piazza Della Unità (a praça inspirada no nosso Terreiro do Paço)...


...Italo Svevo, o autor de 'La Conscienza di Zeno'...





...estátua de Umberto Saba, em Trieste...




...Claudio Magris: um Nobel digníssimo...



Pergunta-me o amigo Eduardo Madureira, num Comentário ao meu post sobre Aharon Appelfeld, se acho que o Nobel seria bem concedido a Claudio Magris.

Sem dúvida: Claudio Magris merece o Prémio Nobel de Literatura.

Mas eu sou parte suspeita.

Conheço-o -somos amigos- há mais de 25 anos, escrevi os posfácios das traduções portuguesas de Danúbio e de Ilações sobre um sabre...

E Trieste -a sua cidade- é uma das minhas paixões.

Trieste é a cidade dos grandes escritores: de Italo Svevo, redescoberto e relançado, toda uma história, por James Joyce, admirado em todo o mundo; de Umberto Saba, poeta cujo génio não se discute.

A título de curiosidade: no final do século XX, em 2000, a Itália elegeu-os, a Svevo e a Saba, os... maiores escitores italianos o século XX.

Trieste é, ainda, a cidade de Scipio Slataper e de Giorgio Voghera (que Viale Moutinho evocou -único em Portugal?-, há anos, no seu blog)...

Foi Voghera quem me apresentou Magris, no mítico Café San Marco, em Trieste...

Oh!, como recordo tudo isso e o vino terrano e a porcina... e a Livraria Antiquário, que foi de Saba e onde comprei a edição fac-similada do manuscrito do seu belíssimo Canzoniere... que me vendeu Carletto, o moço-empregado, então já homem maduro...

Il buon Carletto, come schedo un libro,
ne muta il prezzo a suo arbitrio.......

Aprendi a ler Saba e apaixonei-me por Saba, primeiro, na edição (Ed. Einaudi) anotada, colecção de leituras para a escola secundária (a poesia é, sempre, difícil e a de Saba, especialmente, apesar de límpida ou talvez por isso...), depois, na antologia Per Conoscere Saba, da Mondadori.

Esse volume nunca mais deixou de acompanhar-me... Muitas vezes, nas viagens a Veneza, que fazia de noite, em wagons-lits...

Havia duas carruagens: a antiga, com os tais interiores de veludo encarnado, e a moderna. Era Nazareno, o contínuo da chancelaria, quem me comprava os bilhetes e nem ele, nem o homem da agência percebiam, e nunca perceberam, a razão por que eu escolhia a carruagem antiga...

Caro Eduardo: sou um apaixonado de Visconti... Sou um decadente?

Último decadente, alguém me chamou em Siena; último romântico me acusou de ser Nathan Zach, em Tel Aviv...

Sim, talvez..., se perder-me por Trieste, pela poesia de Saba, por páginas de Svevo ou Magris, por certos filmes de Visconti, pelos colli senesi, for isso...

Que importa, estamos todos de acordo com Keats, quando ele escreve: A thing of beauty is a joy forever...


Devo dizer-lhe, porém, que lembro emocionado uma das estadias (estada é piroso, é feio e Camilo já me autorizou a usar estadia..) em Trieste, pelo seguinte motivo: assisti, no meu vasto quarto do Savoia Excelsior Palace (lá está o decadente), com vista para o porto..., a jogos da nossa selecção num campeonato de Europa, esse mesmo que perdemos para a França, quando já ganhávamos 2-1 e faltavam 6 (seis!) minutos..., participei da festa infausta, com o coração a bater... em Trieste.


Devo dizer-lhe, ainda, que sou benfiquista, gosto de futebol, fui guarda-redes, gosto de cozido à portuguesa, de sarrabulho e de bacalhau à gato (receita secreta), de russas, israelitas e de todas as africanas... etc & tal...


Acha isso decadente?!


Quanto ao Claudio Magris... Compreenderá que sou parte suspeita.


Mas aqui tem a resposta que, aliás, já estava dada: Claudio Magris seria um digníssimo Prémio Nobel de 2009.




1 comentário:

  1. A pergunta foi uma boa ideia. Permitiu-me conhecer os episódios fascinantes que teve a generosidade de contar. Fico-lhe muito grato por ter querido partilhá-los.

    Eduardo Jorge Madureira

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