quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O dia de hoje: ainda sobre os animais que são criaturas de Deus...

...o animal está exausto, sangrado, ludibriado, a dar as últimas... que raio de coragem é a do matador?...





...nenhum risco justifica a crueldade...




...E, depois, que risco? O touro é sangrado, rasgado, embriagado em voltas e voltas que os capinhas -os peões-de-brega- o obrigam a dar.

O touro chega às mãos do matador, desfeito, desorientado, exausto.

Torturado até ao limite que não se ultrapassa para que chegue vivo às mãos do matador.

Qual é a coragem do matador?

Qual é a beleza da crueldade gratuita?

E por que é que esse espectáculo me é, hoje, insuportável?

Quando eu era pequeno, o meu pai levava-me ao Campo Pequeno, em Lisboa, e vi Manolete, Ortega... delirei com as faenas, aplaudi a destreza do Mestre de cavaleiros, Núncio...

Bem sei, não se matava. Os touros saiam vivos, dali, para... o matadouro...

Mais tarde, assisti a corridas, com touros de morte, em Espanha, nos arredores de Ávila.

Já era crescido... e impressionaram-me, também... No entanto, impressionou-me, sobretudo, incomodou-me a brutalidade dos picadores, os lençóis de sangue, que escorriam pelo dorso da besta acossada, ludibriada, atraiçoada...

...a deslealdade do combate viciado.

Trepadeira, no comentário ao artigo de Manuel A Pina, que transcrevi, ontem, insurge-se contra a ‘falsa festa’.

E por que é que, hoje, ela também me revolta?

Por uma razão muito simples: um dia, em Roma, meu filho trouxe, para nossa casa, um cachorro rafeiro, que viveu, connosco, 14 anos: Zac.

Em Itália, em Portugal, em S.Tomé, em Israel...

E a convivência com o Zac, meu camarada da Piazza Navona, do Campo dè Fiori, companheiro de infindáveis noite equatoriais, de tardes nos cafés de Telavive...

...o diálogo que estabelecemos mudou, radicalmente, o meu modo de olhar para os animais.

Se dizer o que vou dizer não fosse uma ofensa (para eles, animais)... diria que descobri que eles são humanos.

E repetirei o velho lugar-comum: melhores do que os humanos.

Eles são -como nós e talvez melhor do que nós- criaturas de Deus.

O Zac foi distinguido e merecia-o: era inteligente, compreensivo, generoso...

Morreu em Telavive e repousa na Terra Santa.

1 comentário:

  1. Assino por baixo. Completamente de acordo.
    Não vou despender este espaço para me revelar um anti touradas (apesar de o ser), nem um fervoroso crítico dos maus tratos aos animais (que condeno vigorosamente), quero antes sublinhar a frase:

    "o diálogo que estabelecemos mudou, radicalmente, o meu modo de olhar para os animais"

    Com ela disse tudo. É pena que nem toda a gente tente esse diálogo e ache repugnante mudar de atitude em relação aos animais... Uma Repugnância que se confunde com Ignorância.

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