terça-feira, 20 de outubro de 2009

Animais, criaturas de Deus...


Os olhos dos tigres
por Manuel A. Pina


Quando era criança e me levavam ao circo, o que mais me afligia eram os olhos dos tigres. Os olhos assustados e resignados dos macacos, os olhos sem vida de leões e elefantes, os dos cavalos aos círculos na pista, rasos e desorbitados como os dos cavalos dos carrosséis, os das esquálidas pequenas trapezistas, metidas em surrados fatos de lantejoulas e fixando vaziamente um ponto abstracto acima das nossas cabeças enquanto agradeciam, hirtas, os aplausos, entristeciam-me.




Mas nos dos tigres havia impotência e orgulho ferido, como se estivessem enclausurados dentro de si e não coubessem dentro de si. Sentia que nos desprezavam e que desprezavam a parte de si que, às ordens do domador, subia e descia ridículos escadotes ou saltava mecanicamente através de arcos em chamas. E culpava-me por assistir ao penoso espectáculo da sua humilhação, imaginando que deviam (com razão) odiar-nos. A lei que finalmente aponta para o fim do abuso de animais nos circos acaba com um espectáculo tão humilhante para os animais quanto para quem (como acontece igualmente nas touradas) se compraz com a sua humilhação.

in Jornal de Notícias, 21/10/09

1 comentário:

  1. Perseguir,torturar e matar animais para gáudio insano dos carrascos é,eticamente,para não dizer mais,condenável.
    Deixe aí acrescentar a caça.
    Como pode,para algumas alimárias,ser um espectáculo e uma festa,como dizia um auto apodado de duplo doutor?
    mário

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