sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O dia de hoje: saudades para Rodika...

...óleo do pintor romeno Nicolai Grigorescu...




A minha posição em relação às estrelas, quando aconteceram, no Portugal do pós-25 de Abril, três tentativas de golpe de estado, foi, sempre, esquisita. Ou, se quiserem, singular...

A 11 de Setembro de 1974, gozava férias andaluzas, numa casinha de pescadores cuja porta era um pano rústico, a cinquenta metros do mar.

No 16 de Março de 1975, estava em Belgrado.

E a semana anterior ao 25 de Novembro de 1975, passei-a, em Bucareste.

Lembro-me de, na fronteira de Badajoz, ser alertado para uma epidemia (obviamenete, inexistente) em Portugal e de me darem, os funcionários espanhóis, ainda franquistas, uns comprimidos e muitas recomendações, com sorrisos compreensivos mas ambíguos, que não entendi, .

E a verdade é que eu não sabia de nada e só adiante, quando soldados me mandaram parar e abrir a mala do carro e perguntaram se as garrafas de vinho de Rioja, que eu trazia, eram mesmo vinho, ao que disse que sim e os convidei a provarem e eles hesitaram e a contragosto, pareceu-me, recusaram, só já na terrinha é que dei conta da spinolada...

No 11 de Março, eu fora a Belgrado levar correio diplomático e festejei, com o saudoso Embaixador Francisco Ramos da Costa, homem de um só querer e de uma só cara, a sobrevivência da 2ª República...

Na segunda metade de Novembro de 1975, deslocara-me a Belgrado, mais uma vez portador de mala diplomática, e aproveitara para dar um pulo a Bucareste, onde um nevão e pêras me obrigou a ficar uma semana -tempo que o aeroporto esteve fechado. Uma semana agradabilíssima e... triste.

Eu conto.

A embaixada tinha gente óptima que me recebeu e apoiou, fidalgamente. Destaco o Adido Militar, pessoa de grande qualidade humana, amigo de rara fineza, o hoje General Hugo do Santos.

E por que o destaco? Primeiro, porque me aturou; depois, porque me acalmou, discretamente: quando regressei a Roma -um dia antes do dia 25- eu já ‘sabia’ que o disparatado golpe de extrema-esquerda não tinha pés para andar. Seria, certamente, um desastre (irreparável?) para a 2ª República, se tivesse...

Durante essa semana, aconteceu-me a tal coisa triste e elucidativa, se eu tivesse dúvidas acerca do regime de Ceaucescu, que não tinha.

Conheci uma jovem universitária, Rodika. Ela foi minha guia, minha conselheira, minha amiga, minha compincha. Era uma rapariga muito bonita, alegre, comunicativa, grande leitora dos grandes escritores, sensível, inteligente, sedenta de saber o que ia pelo ocidente... Era uma estupenda companhia. É preciso não esquecer que, entre as duas grandes guerras, de 1918 a 1939, Bucareste era considerada a Paris da Europa central. Mas...

...Eu vinha recomendado, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros por um diplomata romeno que encontrara, várias vezes, em Roma, uma excelente criatura. E, nesse Ministério, passei a ter um amigo (à chegada, esperava-me no aeroporto) cuja missão seria a de me facilitar a estadia. A Roménia era um país policiado, complicado.

Ora eu caí na asneira de dizer ao meu amigo local, com quem almoçava... que, nessa mesma tarde, às 18 horas, iria encontrar-me com Rodika, na Livraria Eminescu (que o tremor de terra de 1977 destruiria)...

À altura, os romenos estavam proibidos de abordarem estrangeiros e, caso isso sucedesse, eram obrigados a entregar um relatório à polícia.

Nessa tarde, Rodika não apareceu, na Eminescu. Rodika nunca mais apareceu.

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