sexta-feira, 11 de março de 2011

Cinco euros por dia




Levanto-me muito cedo e, durante os poucos dias que passei, recentemente, no Porto, sempre no confortável Hotel Inca, à Praça do Coronel Pacheco, costumo ir ler para uma salinha, pegada ao quarto. E espreitar a televisão.

Foi aí e que me saiu, na RTP1, um programa com entrevista a uma senhora, socióloga?, economista?, que perorava sobre o drama das famílias perante a crise galopante.


E eis que a oiço responder a tal senhora à produtora do referido programa:


“-A solução é poupar! Organizarmo-nos! Nas despesas de comida, por exemplo. Olhe, se soubermos economizar, com cinco euros [ELA DISSE 5 EUROS], por dia, uma família pode viver perfeitamente. É comerem muita sopa! Vegetais! Batata! Feijão! Isso é muito alimentício.”


E disse-o, com o maior dos desplantes que imaginem.


E eu a olhar para ela, gordinha, anafada, bem vestida, a receber, com certeza, muitas e muitas notas de 5 euros, para estar ali a vender aquela sopa aos pobres.


E a pensar que aquilo se dizia, permitiam que se dissesse, no primeiro canal da televisão do Estado.

12 comentários:

  1. Não sou das que choro por qualquer coisa, mais isso me faz chorar de raiva.
    Existem 2 tipos de pobreza e miséria, uma relativa a condição clara de manter o estômago cheio e funcionando e a outra cerebral, da capacidade miserável de alguns indivíduos de raciocinarem.
    Há mais uma, a pobreza de espírito.
    Socióloga? Economista? Melhor, Pobre, miserável e sem espírito (acho que a alma lhe fugiu de vergonha).

    Obrigada por se indignar. 5 bjs

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  2. É bem verdade! A pessoa que se atreveu àquele "bom conselho" é o exemplo mais completo da hipocrisia, da falta de alma (que, diz bem, fugiu dela, há muito, por ter vergonha de viver dentro dela), do cinismo, da safadice humana.

    É a mesma hipocrisia, o mesmo cinismo que levam a dizer a quem pede esmola: "Tenha paciência".

    Hoje, em Portugal, 90% da população não pode poupar 1 cêntimo: o que ganha por mês esgota-se a meio do mês. E mais de 50% está na miséria e na fome.

    Eu senti-me mal por ouvir dizer aquilo e saber que eu vivo com muito mais que 5 euros por dia e não tenho fome.

    E que eu vivo enquanto há biliões que morrem de fome.

    Senti revolta contra a tal "doudora" e senti vergonha de mim.

    Mas sei que, se todos limpassem o bocadinho da frente da sua porta de casa, o mundo estaria bem menos sujo.

    Tento, sinceramente tento, luto por isso, não esquecer o irmão homem.

    E estender-lhe a mão. E sorrir-lhe. E dizer-lhe bom dia.

    Luto contra o egoísmo que nos rói a alma.

    A luta não é fácil mas o sorriso do outro resgata tudo, compensa, consola.

    Obrigado pelas suas palavras.

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  3. E é a gente destas que dão a palavra; e a palavra espalha-se como fogo; e se os pobres recolherem essa palavra dentro do seu peito, vão sentir-se "bem alimentados" só de ouvi-la... Como é possível????

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  4. Indignação é o que sinto depois de ler o que a tal senhora propunha como dieta alimentar. Fez-me recuar à política vigente há uns anos atrás. Pobreza de espírito e uma grande falta de humanidade, moral e ética!
    Tristezas...

    Bem-haja pelo inconformismo!

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  5. Josefina, Ana: nós não podemos conformar-nos! É pecar contra a Vida!

    A Vida pode ser completamente diferente do que dela têm feito os que sacrificam ao rei Midas.

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  6. E...
    "Nos olhos dos homens reflecte-se o malogro. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima."
    John Steinbeck, As Vinhas da Ira,
    Ou não...

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  7. Manuel,

    Esperemos que... sim!

    Tantas vezes recordo não só o extraordinário e fortíssimo livro de Steinbeck mas também a obra-prima de John Ford...

    Tudo quanto se anda a fazer para resolver a crise não levará a nada -é obra de serventes dos responsáveis, é uma farsa mal posta em cena.

    Não é emagrecendo quem já puseram tísico que recuperam as vacas gordas do roubo sistemático neo-capitalista.

    Isto só muda, mudando o sistema.

    Ora mudar o sistema dos quadrilheiros é que os quadrilheiros não querem.

    Boa noite, acredite naquilo a que chamam utopia e não o é: é o desejo de justiça.

    Acredite numa sociedade igualitária, livre, solidária, justa.

    "El pueblo unido..."

    Boa noite, amigo.

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  8. Boa noite amigo! É bom saber que ainda há quem possa estar em sintonia comigo e com as utopias.
    Só o pobre de espírito fala em pragmatismo! Eu prefiro falar de utopias porque elas são o cimento dos sonhos!
    E que seria de nós (el Pueblo) sem os sonhos...

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  9. Aparece por aí,pela mão de outros como eles disfarçados de neutrais,cada vez mais coisas dessas.
    Por semelhantes patetas tenho comiseração.
    Pelos outros raiva profunda,daquela que leva à acção.
    Um abraço,
    mário

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  10. Partilho a sua indignação. Continue o seu trabalho, que é admirável, contra vuvuzelas e gataria! Um abraço.

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  11. O povo ainda vai ter de "comer" muita sopa desta para se revoltar à séria...

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  12. Infelizmente, e ao longo dos séculos, a indignação e revolta dos portugueses vai limitando-se a emigrar.

    As viagens de descobertas não foram outra coisa, para a arraia miuda.

    No século XIX, toca a andar para o Brasil, muito poucos ou nenhum para África.

    Depois, foi a América, o Canadá...

    Nos anos 50/60, toca para a Europa, a salto, vendendo bens e camisa aos "passadores", novos negreiros...

    Agora... julgo andar perto da verdade se disser que, nos últimos 20 anos emigraram mais de 2 milhões de portugueses.

    Só em Inglaterra, trabalham entre 500 a 600 mil portugueses.

    Portugal fenece.

    E os políticos marimbam-se... desde que saquem os lugares.

    Quando era urgente voltar às "sessões de esclarecimnto", elucidar o povo sobre os seus direitos e deveres!

    Não por acaso à eleição do PR acorrereu, apenas, 23% do eleitorado.

    A política, o civismo, a democracia, 60% dos portugueses ignora o que seja... ou despreza.

    O grande falhanço do post 25 de Abril foi esse: não educou o povo.

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