'A morte do cônsul', 1982?, 1984?, óleo de Aldo ZariGuardo, no meu gabinete de trabalho, esta obra maior de Aldo Zari.
Infelizmente, não vo-la posso mostrar em melhor imagem. Talvez um dia...
A morte do cônsul é o título concordado entre nós os dois –e homenagem a Geoffrey Firmin, o herói do extraordinário romance de Malcolm Lowry, Under The Volcano.
Aldo era um leitor insaciável, um melómano, um homem de cultura e, na abertura, curiosidade e disponibilidade, acompanhadas de entrega sensorial às coisas, um renascentista.
Também por isso, acossado pelo sentimento trágico da vida, que Unamuno descreveu superiormente.
Unamuno que Aldo leu, tal qual leu Sófocles, Ésquilo, Platão, os grandes russos, Dostoievski, um dos seus preferidos, Tolstoi; os grandes ingleses, Dickens, Hardy... e os contemporâneos, Thomas Mann, Proust, Gide, Hemingway, Scott Fitzgerald...
Naturalmente, todos os poetas clássicos italianos, Dante, Petrarca...
...todos os modernos italianos, Saba, Montale...
Aldo era um autodidacta genial.
Com ele aprendi de tudo um muito. Por exemplo: a conhecer Veneza e os seus pintores, a compreender Tiziano (um dos seus ídolos), a amar Giovanni Bellini.
Aprendi a conhecer e amar a Venezia povera, a dos sestieri populares, das osterie, La Vedova, Il Paradiso Perduto...
Ora, num dos muitos dias que passámos juntos, em Veneza, fomos almoçar a um pequeno restaurante, junto à ponte da Accademia e, pendurado da parede, dei com o óleo sem título -Aldo não intitulava nenhuma ou quase nenhuma obra-, que me deslumbrou.
Discorrendo sobre ele, veio-me a figura de Geoffrey Firmin, o torturado personagem de Lowry, e propus assim lhe chamássemos: A morte do cônsul, cuja violência e poesia Aldo parecia ter querido fixar na tela.
Under The Volcano era um dos seus romances preferidos, que exaltara, emocionara e apaixonara o homem, também como Geoffrey, alter ego de Lowry, flagelado pela angústia de raiz implantada bem fundo no capricho do absoluto, que ora vem, ora vai, se mostra e foge e na saudade do impossível amor perfeito.
Assim, acedeu em escrever, na parte detrás do quadro, o nome com que ficou.
Justa homenagem a esse bom amigo, sincero e genial pintor,bom homem na raiz.
ResponderEliminarUm exemplo! Nunca o vi senão pobre e com as mãos cheias de oiro e estrelas.
ResponderEliminarManuel Poppe,
ResponderEliminar"Nunca o vi senão pobre e com as mãos cheias de oiro e estrelas". Que pensamento mais bonito!
Deu-me prazer ler este poste. Fala de autores que conheço e outros que conheço mal, como Ésquilo e Sófocles que apenas li alguns excertos e textos. Dante li e sou uma fã incondicional da "Divina Comédia", Petrarca conheço mal. Também não conheço Gide e Geoffrey Firmin (já li que "Debaixo do Vulcão" é um livro muito interessante); os outros li. Deparei-me com um facto que me chamou a atenção: o seu amigo pintor gostava mais de Dostoievski, também partilho dessa opinião.
Como vê sou uma inculta. Lastimo a minha incultura, a falta de tempo para ler tudo... e os meus bolsos também estão vazios, nas mãos tenho sonhos perdidos. Como gostava de ter conhecido o seu amigo!
Com este perfil como posso almejar a sua amizade?
Nasci num meio provinciano, numa família com posses, numa determinada altura da vida, o meu background é muito pequeno!
Já sofri por esse facto. A divisão de classes é eterna, não tem que ver com falta de democracia.
Desculpe estes registos. Mas foi o seu poste que despoletou estas sensações.
Não tenha espécie alguma de sentimentos de inferioridade. É uma jovem mulher muito culta e tem a vida à sua frente!
ResponderEliminarTambém eu cresci na provínica e aprendi lá imenso! Quanto mais ainda lhe restar para ler, melhor.
"Debaixo do Vulcão" é um dos romances mais importantes do séc. XX e Geoffrey Firmin, o herói, uma personagem fortíssima.
Escrevi há um ano 2 artigos sobre o Malcolm Lowry e um dia destes vou tentar publicá-los aqui.
Under The Volcano está traduzido para português, creio que na Relógio de Água (espreite lá). É um livro duro e que exige muito do leitor.
Não anda de mãos vazias! Elas estão cheias dos seus desejos de ir além!
Tenho a certeza de que gostaria muito de ter conhecido Aldo Zari. Era uma pessoa rica, apesar de pobre e autodidacta.
Um beijo.