domingo, 13 de março de 2011

Zari e as mãos de oiro

Aldo Zari, fotografado por um amigo veneziano



Portugal apresentava-se -a primeira vez- em espaço independente, na Bienal de Veneza e representava-nos Alberto Carneiro.


Ripa di Meana, presidente da Bienal, quisera homenagear a jovem democracia, saída duma ditadura de meio século, atribuindo-nos o pavilhão, que inaugurámos, obra do grande arquitecto finlandês, Alvar Aalt.


Aconteceu no mês Junho de 1976.


Alberto e eu montávamos a exposição e, a poucos metros, observava-nos uma personagem que haveria de marcar a minha vida, sendo-me mestre.


Um homem de longas barbas ruivas, olhos azuis detrás das lentes redondas, encastoadas em armação metálica.


Esteve assim, até que o chamámos.


Afinal, era o nosso guarda!


Depressa passou a amigo, ajudante, guia e compincha a levar-nos pelas calle e osterie de Veneza.


Descobrimos, depois, o seu tesouro: bolseiro da Fundação Bevilacqua La Masa, acumulava, no estúdio do Palazzo Carminati, quadros de beleza delicada, primorosa.


Sim, há, nas suas pinturas requintadas, a harmonia do inicial: a pureza da revelação imaculada. E, também, a vertigem da criação em movimento imparável.


Aí, reside a originalidade de Zari, esse é o oiro que escorre das suas mãos, generosíssimas e sempre pobres.


Foi um incompreendido, morreu ignorado e marginalizado. Trabalhou com a obstinação e a entrega de um Tiziano, que idolatrava.


O Porto homenageou-o, com duas exposições: na Árvore e na Fundação António de Almeida.


Deveu-se a um grande amigo, que também já partiu: Rui Polónio Sampaio.

Isso nunca lhe faltou: amigos! Porque a candura de Aldo Zari fascinava. E a sua angústia partia-nos o coração, que logo queríamos abrir-lhe.


Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 13/03/2011

5 comentários:

  1. Manuel Poppe, foi muito bom dar-nos a conhecer Aldo Zari!
    Pelas vossas palavras sempre pensei que era uma pessoa especial!
    Com este artigo ficámos a saber porquê!

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  2. Bom dia

    Aldo Zari é como eu o imaginava.

    Uma homenagem tão bonita.
    Aldo Zari afinal não era pobre porque era tão rico de verdadeiros amigos.

    Isabel

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  3. Que fotografia impressionante, bela.
    História triste mas digna... não sei bem porque digo isto.
    Aldo Zari: Os olhos da alma! O meu título para a fotografia.
    Ainda não consigo fazer a ponte com Tiziano mas chegarei lá...talvez.
    Abraço e um sorriso!

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  4. Querida Ana, Não há ponte a fazer. Aldo admirava o enorme pintor que é Tiziano, a sua capacidade de trabalho, o seu sacrifício. E a grandeza da sua pintura. Mas o que o empurrava para a frente era a obstinação do outro: do Tiziano. Que trabalhava, que insistia, que procurava. Foi o Aldo que me mostrou e ensinou e Tiziano. E aos dois, devo a vontade de não me trair: de dar o que tenho. Porque é a minha obrigação.

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  5. Querida Natália,

    Ele andou com os deuses.

    Bjs.

    Manuel

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