sábado, 5 de março de 2011

As almas e os lugares



Quando me meti a caminho da cidade -a Guarda- onde vivi sete dias emocionantes, únicos, juntei à bagagem o livrinho de Aquilino, “Aldeia”, a servir-me de breviário, viático ou vade-mécum.


Ia à busca de inteireza, desencantado destes “tempos que correm, precipitados e estritos em tudo”, desconsolado porque “o mundo vai-se tornando mais monótono que uma lande de sargaço” (Aquilino dixit).


A Guarda, citânia inexpugnável, monte sagrado, purifica as almas tresmalhadas: é ermitério, luz ao longe.


Eu vinha do “progresso”, da civilização inculta, onde perdemos o nome e quanto é nosso.


Ana Isabel Queiroz, na inteligente obra “A Paisagem de Terras do Demo” (Esfera do Caos), a propósito do grande escritor de “Aldeia”, interroga-se sobre o choque entre civilização e cultura: “que tipo de progresso? (...) Pretende-se crescimento ou desenvolvimento?”


Crescer para onde? Desenvolver o quê? O que nos esvazia e cansa é crescermos para nada e obrigarem-nos a desenvolver o sem sentido.


“Nós, sim, não teremos razão, mas ainda não nos demonstraram que a não temos”, reclama Aquilino em “Quando os Lobos Uivam”.


O que fazem é sufocar-nos, deformarem-nos.


“A paisagem é uma realidade complexa e dinâmica que resulta das diferentes características do espaço biofísico, da evolução natural dos sistemas ecológicos e das alterações que o Homem lhe introduziu ao longo da História. A combinação desses factores gera a sua diversidade”, sublinha, lucidamente, Ana Isabel Queiroz.


E nós não só somos os anjos da guarda dessa paisagem como seus carrascos –e, por consequência, os construtores ou carrascos de nós próprios.

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 6/03/2011

1 comentário:

  1. Tudo o que escreveu é belo. Mas às vezes, penso o lugar que idealizamos nunca o encontraremos a não ser na Natureza pujante.
    Progresso? Civilização? Identidade?
    Uma tríade complexa. Talvez o silêncio da paisagem seja a identidade...
    Bom Domingo!

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