terça-feira, 8 de março de 2011

Um grande esquecido

'Bêbados ou Festejando S. Martinho', 1907, Malhoa



Na taberna

A João de Deus

Vejo apontar o inverno...
Os crepitantes frios
Me açoutam as vidraças...

Francisco Manuel

Alguns dormem, nas mesas, debruçados,
Junto aos restos de um vinho já bebido;
-Outros contam os seus casos desgraçados.-

Um deles, alto, magro, mal vestido,
Conta histórias d’ amor; lançando fumo
Dum cachimbo de gesso enegrecido.

Um tenta levantar um outro a prumo
Sobre os ombros, e um calvo, e já vermelho,
Faz das suas misérias um resumo.

Depois conta que o pai ético e velho
Lhe está para morrer; lastima a vida;
E sobre as vinhas pede um bom conselho.

A casa é escura, velha, enegrecida
Do fumo. Noite velha ouve-se o vento
Bater na antiga porta carcomida.

O frio, a neve, a fome, o mau sustento
Tem quebrantado muito aquelas fontes;
E em muitos esmaga o pensamento.

Nalguns exigindo, mesmo, as fontes
Da justiça e do bem; e feito errar,
No mundo, como lobos pelos montes.

E o egoísmo dos filhos e do Lar
Banido o dó das lástimas estranhas,
E tornando-os mais frios do que o mar.

Alguns vivem nas neves, nas montanhas;
Outros o rio têm por seu vizinho,
E com a fome travam más campanhas.

E –todos- têm o ar triste e mesquinho
Dos que vão, sem prazer, habituados,
Como a um sono que tira maus cuidados...

Beber as suas lágrimas com vinho.


Gomes Leal, 1848-1921

in Claridades do Sul, 1875

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