'Bêbados ou Festejando S. Martinho', 1907, MalhoaNa taberna
A João de Deus
Vejo apontar o inverno...
Os crepitantes frios
Me açoutam as vidraças...
A João de Deus
Vejo apontar o inverno...
Os crepitantes frios
Me açoutam as vidraças...
Francisco Manuel
Alguns dormem, nas mesas, debruçados,
Junto aos restos de um vinho já bebido;
-Outros contam os seus casos desgraçados.-
Um deles, alto, magro, mal vestido,
Conta histórias d’ amor; lançando fumo
Dum cachimbo de gesso enegrecido.
Um tenta levantar um outro a prumo
Sobre os ombros, e um calvo, e já vermelho,
Faz das suas misérias um resumo.
Depois conta que o pai ético e velho
Lhe está para morrer; lastima a vida;
E sobre as vinhas pede um bom conselho.
A casa é escura, velha, enegrecida
Do fumo. Noite velha ouve-se o vento
Bater na antiga porta carcomida.
O frio, a neve, a fome, o mau sustento
Tem quebrantado muito aquelas fontes;
E em muitos esmaga o pensamento.
Nalguns exigindo, mesmo, as fontes
Da justiça e do bem; e feito errar,
No mundo, como lobos pelos montes.
E o egoísmo dos filhos e do Lar
Banido o dó das lástimas estranhas,
E tornando-os mais frios do que o mar.
Alguns vivem nas neves, nas montanhas;
Outros o rio têm por seu vizinho,
E com a fome travam más campanhas.
E –todos- têm o ar triste e mesquinho
Dos que vão, sem prazer, habituados,
Como a um sono que tira maus cuidados...
Beber as suas lágrimas com vinho.
Alguns dormem, nas mesas, debruçados,
Junto aos restos de um vinho já bebido;
-Outros contam os seus casos desgraçados.-
Um deles, alto, magro, mal vestido,
Conta histórias d’ amor; lançando fumo
Dum cachimbo de gesso enegrecido.
Um tenta levantar um outro a prumo
Sobre os ombros, e um calvo, e já vermelho,
Faz das suas misérias um resumo.
Depois conta que o pai ético e velho
Lhe está para morrer; lastima a vida;
E sobre as vinhas pede um bom conselho.
A casa é escura, velha, enegrecida
Do fumo. Noite velha ouve-se o vento
Bater na antiga porta carcomida.
O frio, a neve, a fome, o mau sustento
Tem quebrantado muito aquelas fontes;
E em muitos esmaga o pensamento.
Nalguns exigindo, mesmo, as fontes
Da justiça e do bem; e feito errar,
No mundo, como lobos pelos montes.
E o egoísmo dos filhos e do Lar
Banido o dó das lástimas estranhas,
E tornando-os mais frios do que o mar.
Alguns vivem nas neves, nas montanhas;
Outros o rio têm por seu vizinho,
E com a fome travam más campanhas.
E –todos- têm o ar triste e mesquinho
Dos que vão, sem prazer, habituados,
Como a um sono que tira maus cuidados...
Beber as suas lágrimas com vinho.
Gomes Leal, 1848-1921
in Claridades do Sul, 1875
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