
CamiloNada mais repugnante do que a feira das vaidades literatas. É lá que medram a inveja, a calúnia, o canibalismo e engorda o ganancioso, abatendo e destruindo quantos se oponham à sua justa afirmação e ao seu triunfo –justos, julga ele.
Pratica, sobretudo, o silêncio e a indiferença, incapaz de mais. Enterra, morto ou vivo, quem lhe possa fazer sombra.
Não há excepções?!
Claro que há. E aqui trago dois episódios de grande beleza moral e exemplar generosidade.
Se não sabias, ficas a saber: Stendhal (1783-1842), o romancista francês hoje tão amado e admirado, o autor de Le Rouge et le Noir, passou, no seu tempo, quase despercebido e menosprezado; teria mesmo soçobrado em esquecimento, não o houvesse salvo Romain Colomb, seu primo e providencial executor testamentário.
Porém, quando da publicação de La Chartreuse de Parme (1839), Honoré de Balzac, monstro sagrado, escrevera, na Revue Parisienne, o artigo inesperado e desinteressado (não se conheciam de parte nenhuma nem Stendhal tinha nada para lhe dar), a reconhecer, no autor considerado “menor”, um grande romancista.
E vamos, agora, a Trindade Coelho (1861-1908), o suicida, criticado e perseguido, na última década da monarquia, por democrata e... inquietador: pretendera arrancar o povo à ignorância e abrir-lhe estrada de gente.
A título de triste curiosidade, aqui deixo, amigo um dado sobre o Portugal dos finais do século XIX, início da século XX, o Portugal que herdará -pesada herança!- a Primeira República, o país cuja miséria inacreditável tanto ajudou a milagres e ao advento do Estado Novo, mesquinhamente salazarista; constam os números do prefácio de Carolina Michaëlis de Vasconcellos à obra póstuma Auto-Biografia e Cartas, de Trindade Coelho:
em 5.423.132 habitantes de Portugal, 4.262.336 continuavam a ser analfabetos.
Mas o que interessa é o segundo episódio -afinal, o que mais nos interessa e emociona, por vir de quem vem e tantas vezes é acusado de sarcasmo-, outro belo gesto de altruísmo:
Trindade Coelho nascera remediado e o andar da vida fizera dele menos de remediado; no entanto, formara-se em direito, à custa de suar estopinhas e de trabalhar, já casado e com um filho.
Publicara artigos nos jornais e escrevera dois dos contos que enriquecem a jóia que é Os Meus Amores: O Sultão e Idílio Rústico.
Concorre, em 1886, ao lugar de Delegado do Procurador Régio.
E recebe uma carta de alguém que não conhece e é o maior romancista português; conta:
“um dia de manhã recebo uma carta, de Camilo Castelo Branco, o grande escritor, que eu nunca tinha visto, nem ele a mim: dizia-me que vira nos jornais que eu fora a concurso e que escrevera ao ministro pedindo-lhe que me despachasse!
Caí das nuvens! Mas d’aí a poucos dias estava efectivamente despachado “delegado do Procurar Régio” do Sabugal, e eu ia ao Minho visitar o grande escritor, vê-lo pela primeira vez (primeira e última!) e beijar-lhe as mãos pelo seu tão grande favor”.
De onde: nunca tudo está podre no Reino da Dinamarca.
Achei graça ao poste e às analogias. Fez-me sorrir.:)
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