terça-feira, 31 de março de 2009

O'Neill vivo da costa!


1. Politiqueiros chamaram a Manuel Pina (poeta singular e jornalista íntegro) “demagogo”. Mais uma prova do analfabetismo pandémico português (e da política atascada do país)! Com o aleijão esbarra Alexandre O’Neill. E uso o presente do indicativo pois constato que volta quem aponta, superiormente, a beleza e a mediocridade envolventes. Se o título da obra póstuma é “Já cá não está quem falou” (Assírio & Alvim) e lembra que o escritor se foi (morreu em 1986), nós encontramos, em cada página, a empolgante e sedutora presença -a voz excepcional de artista, sempre poeta, mesmo quando escreve a prosa inimitável do livrinho “As Andorinhas Não Têm Restaurante”. Dado que o mundo é pequeno e Portugal apertado, tive a sorte de o conhecer. Emociona-me a memória, tocada de nostalgia e amizade? Com certeza; no entanto, aquilo que me impressionou foi a autenticidade de uma pessoa que tudo deu à vida, a começar pela própria vida e a assumiu de modo exemplarmente exigente e sincero –no risco constante. Eis o que faz os homens de eleição e os criadores –caso de Alexandre O’Neill.

2. Interveniente? Sim, andou por aqui a descascar a vida: a tentar entendê-la e a denunciar o provável disparate dela e o escândalo dos exércitos de resignados à mediocridade de fetos inacabados, que a rebaixam e lhe apagam a luz. Também andou a revelar a beleza (já sabemos: esquiva, fugaz, feita de breve instante, que nos deixa água na boca e sede insaciável). Acontece que O’Neill no-la entrega e vibramos (sofremos, involuntários e voluntários aprendizes da desistência) na grande altura da sua poesia.



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