Os gregos, que já sabiam do átomo, concluíam: “nada vem do nada nem regressa ao nada”. Até que ponto isso responde à nossa angústia, diante da morte inevitável? Albert Camus falou do problema, certamente o problema fundamental. Recordo o seu admirável romance “La Peste”, que deslumbrou o adolescente que eu era, ao encontrá-lo. Um dia destes vou reabri-lo; tantos anos passados, a angústia da morte não se apagou, em mim. No entanto, a tal ideia grega de que não chegamos do nada nem ao nada voltamos -continuará a ínfima (e, para nós, imensa) parcela fantástica de vida o seu caminho, por estradas desconhecidas- ajuda-me bastante. Claro que penso estas coisas, (infelizmente?) livre de qualquer dogma religioso. Pergunto: que raio de sentido tem a vida, se a morte a extingue, implacável e irremediavelmente? E respondo-me: a nossa vida é um instante da vida eterna, que enraíza no poço insondável do ontem e continuará no milagre do amanhã, e por aí adiante, connosco e sem nós, que ficaremos pelo caminho. E, talvez, aceitando a lei da vida e tentando colher no instante que nos é concedido, a plenitude, a beleza e o amor –encontremos um sentido: o da alegria. Há uma frase esplêndida de Cristo (e cada um julgará Cristo à sua maneira: Deus feito homem; ou o homem que mais se aproximou de Deus, tal qual Régio insinua, num livro singular, profundo, rico, único na nossa Literatura, “Confissão dum homem religioso”); diz Jesus: “recebeste sem pagar nada, dá sem pedires que te paguem”. O que é que recebemos? A maravilha do mundo. O que poderemos dar? A entrega, sem o mesquinho cálculo dos avarentos mortos-vivos. Não falámos disso, a propósito de “Gran Torino”? À nossa angústia oporemos a força do milagre de estar na vida. Breve o instante que nos cabe? Sim, mas nem por isso menos intenso, imensurável, insondável, formidável, do que outro qualquer.
segunda-feira, 23 de março de 2009
O dia de hoje...
Os gregos, que já sabiam do átomo, concluíam: “nada vem do nada nem regressa ao nada”. Até que ponto isso responde à nossa angústia, diante da morte inevitável? Albert Camus falou do problema, certamente o problema fundamental. Recordo o seu admirável romance “La Peste”, que deslumbrou o adolescente que eu era, ao encontrá-lo. Um dia destes vou reabri-lo; tantos anos passados, a angústia da morte não se apagou, em mim. No entanto, a tal ideia grega de que não chegamos do nada nem ao nada voltamos -continuará a ínfima (e, para nós, imensa) parcela fantástica de vida o seu caminho, por estradas desconhecidas- ajuda-me bastante. Claro que penso estas coisas, (infelizmente?) livre de qualquer dogma religioso. Pergunto: que raio de sentido tem a vida, se a morte a extingue, implacável e irremediavelmente? E respondo-me: a nossa vida é um instante da vida eterna, que enraíza no poço insondável do ontem e continuará no milagre do amanhã, e por aí adiante, connosco e sem nós, que ficaremos pelo caminho. E, talvez, aceitando a lei da vida e tentando colher no instante que nos é concedido, a plenitude, a beleza e o amor –encontremos um sentido: o da alegria. Há uma frase esplêndida de Cristo (e cada um julgará Cristo à sua maneira: Deus feito homem; ou o homem que mais se aproximou de Deus, tal qual Régio insinua, num livro singular, profundo, rico, único na nossa Literatura, “Confissão dum homem religioso”); diz Jesus: “recebeste sem pagar nada, dá sem pedires que te paguem”. O que é que recebemos? A maravilha do mundo. O que poderemos dar? A entrega, sem o mesquinho cálculo dos avarentos mortos-vivos. Não falámos disso, a propósito de “Gran Torino”? À nossa angústia oporemos a força do milagre de estar na vida. Breve o instante que nos cabe? Sim, mas nem por isso menos intenso, imensurável, insondável, formidável, do que outro qualquer.
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