Eça de Queirós fartou-se de chamar as atenções para o seguinte: apesar de Portugal ser pequenino, cabemos cá todos. Pensava o homem da Póvoa do Varzim ou de Vila do Conde (isso continua incerto e a discutir-se) nos literatos lusos, sempre à cotovelada e em bico dos pés, ansiosos de que os vejam e valorem. A esta ânsia sucedem-se o sufocação e o canibalismo. A saber: os nossos literatos gananciosos silenciam ou riscam do quadro os ‘adversários”. Não falam de certos vivos e muito menos falam de certos mortos (a não ser que os mortos lhes sirvam para teses de mestrado ou doutoramento..., ou para ‘ensaios’ que lhes engordem o CV...). Por isso escritores como João Gaspar Simões desapareceram da vista. João Gaspar Simões é autor de duas biografias fundamentais e as melhores que por cá se escreveram acerca dos biografados: precisamente, o nosso abrasador Eça de Queirós e o nosso poeta da tragédia com 5 máscaras, Fernando Pessoa. Publicou estudos sobre Júlio Dinis, Garrett... Escreveu um livro que é um ‘manual’ imprescindível e ao qual recorro, constantemente: Perspectiva Histórica da Ficção Portuguesa (Dom Quixote). Exerceu a crítica literária -e fica, a meu ver (mas tudo se pode e deve discutir), como o melhor crítico da nossa Literatura- durante 60 anos (há vários livros que reúnem trabalhos seus... livros esgotados e não reeditados). Tem alguns dos mais importantes romances do nosso século XX (obviamente, esgotados), Elói, Internato, O Marido Fiel; novelas admiráveis, de entre as quais assinalo Eduarda (faz parte do livro A Unha Quebrada); deixou peças de teatro apreciáveis, livros de ensaios interessantíssimos. Ainda o seguinte: Retratos de Poetas que Conheci é um precioso testemunho que JGS nos legou e onde evoca, magistralmente, Afonso Lopes Vieira, Afonso Duarte, Pessoa, Almada Negreiros, Luís de Montalvor, Raul Leal, Botto, Mário Saa, António Ferro, Carlos Queirós, Francisco Bugalho, Alexandre de Aragão, Edmundo de Bettencourt e Irene Lisboa. Esgotado, resta procurar nos alfarrabistas e nas livrarias virtuais (como muito bem lembrou Manuel A. Domingos). Viraram-lhe as costas os ‘génios’ da nossa praça (a velha anedota, tão actual!: ‘só génios eramos cinco”...).
Noel Teles (Manuel Teles de Carvalho) foi um homem que publicou pouco, sempre sobre o Alentejo, e escreveu o tal belo romance de que já falei: Terra Campa (1947) –esgotado há muitos anos e à espera de que os herdeiros se lembrem de promover a reedição.
Edmundo de Bettencourt, mais lembrado (Herberto Helder dedicou-lhe um excelente ensaio), é um dos poetas superiores que se revelaram nas páginas da fabulosa revista presença, a grande revista de artes e letras do nosso século XX (há uma preciosa edição facsimilada de todos os números de presença, editada por ‘Contexto’). Obras de Bettencourt? Esgotadas e não reeditadas.
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