sexta-feira, 13 de março de 2009

A Menina do Circo


A nossa casa, na Guarda, era no Largo 5 de Outubro, espaço amplo, onde se montavam, em certas épocas, carrocéis, pistas de carrinhos eléctricos e... o circo. A história que vou contar é a de Rosalinda, a mais jovem das trapezistas. Quinze anos? Uma adolescente que eu via deambular pelo largo, nas horas mortas do circo, que eram as da tarde, um pouco ao deus-dará, com um sorriso meigo, os olhos cansados, o rosto sarapintado de sardas, o cabelo loiro desbotado, sem o mistério que lhe emprestavam o vestido de lentejoilas e as luzes dos projectores mas sempre alguém do mundo fantástico dos saltimbancos. Agora, próxima e disponível. Parecia um pouco desamparada, mas habituada a estar entregue a si própria e, também, aberta ao que viesse. E eu arrisquei-me a falar-lhe. Respondeu-me, prontamente, sem cerimónias, directa, como se já o esperasse.
“-Como te chamas? Vives aqui, não vives?...”
E sentámo-nos na escadaria de pedra que liga o Largo à Rua do Mercado, a dizer banalidades. Ela era mais velha e eu sentia-o. Mais velha e mais experiente, segura de si. Eu não sabia muito bem ao que ia. Atraíra-me o seu mistério –uma trapezista!-, a beleza, a disponibilidade. A condição de vagabunda, de jovem sem raízes, sem sítio fixo, a maturidade que lhe adivinhava, a força do seu corpo perfeito. Hoje, não sei dizer se o era, se não me excitavam, apenas, as formas que vira quase nuas e a sensualidade de mulher livre –mas, naquele momento, parecia-me muito bela, única, muito diferente das estudantinhas inacessíveis e sinuosas, permanentemente a defenderem-se, de quê?, que eu cruzava na rua ou ia esperar à saída do liceu. E atirei, com o coração apertado, se ela não quisesse?:
“-Quer vir a minha casa?...”
“-Àquela?...” –e apontou a vivenda em frente.
“-Ah!, já sabe...”
Ela encolheu os ombros:
“-Vejo-te a saíres e a entrares...”
Ela conhecia-me! A sua segurança, o à-vontade, desarmavam-me. Era um miúdo, nas suas mãos. A menina do circo pobre, a adolescente sem eira nem beira, entregue à sorte, dominava-me. Baixei os olhos que se foram agarrar-se –sinceros...- às sólidas pernas apertadas na saia de chita, que deixava ver os joelhos e um palmo das coxas. Reparei que, ali, pareciam menos bonitas, mas nem por isso deixavam de me excitar. Perguntei-lhe, ansioso e sem convicção:
“-Então amanhã, à tarde? Às quatro horas?...”
Ela puxou as alças do vestido, que lhe desenhava os seios cheios, como quem encerra a conversa:
“-Está bem, às quatro...”
Compôs os cabelos e voltou a sorrir, agora lisonjeada e próxima, numa voz cálida, que me perturbou ainda mais:
“- Vens buscar-me?...”
Tinha as mãos pousadas no colo, abertas, viradas para cima, mas eu não me atrevi a tocar-lhes, nem a fixar-lhe os olhos de míope, com um ligeiro estrabismo, que piscavam, como se estivesse sempre a rir. “O que é que ela quer? O que é que ela quer?...”, pensei.
“-Vou!”
“-Podes entrar...”
E saíu-me a pergunta:
“-Na caravana?...”
Rosalina deu uma gargalhada:
“-Na caravana?!... Não... No circo!”
Recusei, desabridamente, envergonhado e ofendido: pareceu-me que troçava de mim. E, pela primeira vez, tratei-a, por tu:
“-Isso não! Espera cá fora!”
“-Cá fora?... À porta?. Está bem.”
Separámo-nos com um aperto de mão e eu fui direito ao café, ao Mondego, informar os meus amigos, que disseram:
“-Vamos nós também! Queremos conhecer a gaja!...”
Não tínhamos respeito pelas artistas de circo, consideradas espécie de aventureiras, de mulheres de vida fácil? Penso que sim, que o meio nos ensinara e impusera isso. E, afinal, pensá-lo significava pensar como pessoas crescidas: conferia-nos o estatuto de homens. Era... “viril”! Hoje posso e devo envergonhar-me; mas a verdade é que, então, ninguém escapava ao machismo próprio de uma sociedade ultra-conservadora, reaccionária, deformada e deformadora. E, se correra a contar-lhes, fora por vaidade e por um vago receio, que queria dividir. O que é que iria sair dali?
E eis o que se passou: três adolescentes de quatorze anos –acabei por convidar dois amigos- receberam a menina do trapézio, orgulhosos da “conquista”, que passava a colectiva, e embaraçados.
Fui buscá-la à porta do circo e ela apareceu-me, elegante nas roupas singelas de cores vivas, com uma malinha de plástico pendurada do ombro, a equilibrar-se nos sapatos de salto alto e de verniz estalado. Apertou a minha mão, como a não querer largá-la e encostou-me o corpo, radiante, corada, fresca. Pusera um perfume muito forte e pintara os lábios de encarnado e sorria-me, outra vez.
“-Vamos...”
Seguiu-me, alegre e à vontade, muito mais do que eu, decidida e com pressa de chegar. Sentia-lhe o calor e o corpo. As nossas mãos tocavam-se, mas não me atrevi a agarrar na dela. Quanto tempo duraram aqueles trezentos metros? Sem os ver, afligiam-me os vizinhos e batia-me o coração. Quando chegámos, Rosalinda não perdeu a compostura e foi natural e simpática. Pensei:
“-É bonita! É boa rapariga...”
E ela, como se adivinhasse, a negar, olhou para mim e abanou a cabeça:
“-Isto é bom demais! Vives aqui sozinho?...”
Empurrei-a para a sala, onde já estavam os meus dois amigos. Ela hesitou, surpreendida, mas sentou-se, calada e à espera.
Nas terras da Beira-Alta, no Inverno, o sol põe-se cedo e o crepúsculo foi, aos poucos, criando a intimidade que nos assustava, aos três rapazes, sozinhos, diante de uma artista. Ninguém disse nada, nem teve coragem para isso e o desgosto -ou a desilusão- dela era bem visível. E aquele encontro tornou-se ridículo, sentíamo-nos mal, a sua presença desafiava-nos e assustava-nos e não sabíamos o que havíamos de fazer. Balbuciámos graças estúpidas, rimos sem propósito, a encorajarmo-nos e incapazes de tomar iniciativas. Penso que ela se cansou mas não se atreveu a ir-se embora. E como desejávamos que se fosse, que tudo acabasse! Quando, finalmente, passou o tempo -ou achámos que passara- e a levei de volta ao circo, não tinha coragem para olhar para ela e nem sei se, à despedida, lhe apertei a mão. Evitei voltar a encontrá-la, ainda que uma vez me tivesse acenado de longe com o mesmo sorriso bom e sem ressentimento.


(in Memórias, José Régio e Outros Escritores)


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